“Sonata de Outono”, de Ingmar Bergman. [download: filme]
1 de Maio de 2008
Eva convida a mãe, Charlotte, uma pianista de sucesso, para visitá-la depois de longos sete anos sem que as duas tenham estabelecido qualquer contato entre si. A pianista aceita, e ao chegar é informada por Eva da presença na casa de Helena, sua filha mais nova, uma mulher com severa debilitação física que Charlotte imaginava ainda estar em uma instituição onde a colocou e não mais procurou ver. Dentro de pouco tempo sua estadia vai servir para que Eva exponha toda a mágoa do passado que levou-as ao afastamento.
O cinema de Ingmar Bergman é marcado pela construção de uma cenografia, fotografia e composição de cenas que não apenas possuíam imensa beleza plástica, mas que contribuíam com o tecido próprio da história que queria contar, pelo modo como trabalhava as interpretações de seus fiéis atores com o máximo de eficiência e pelo olhar inquisidor e crítico que o diretor sueco debruçava sobre os temas que abordava. “Sonata de Outono”, filme de 1978, é mais um exemplo excepcional deste trabalho tão requintado e cauteloso do celebrado diretor europeu.
A qualidade dos aspectos técnicos de “Sonata…” supera a sua própria utilidade, pois a cenografia e fotografia irretocavelmente belas foram arquitetadas de modo a reforçar a idéia de que os personagens que ali estão tentam disfarçar inutilmente as profundas atribulações que carregam à tanto tempo cercando-se com um manto de solidez, constância, equilíbrio e austeridade que são, claro, pura aparência, assim como também a composição e enquadramento das cenas foi delicadamente planejado afim de aprofundar e potencializar o impacto, no espectador, das emoções em que os personagens se encontram imersos. O que nos leva ao trabalho das atrizes, que abrilhanta o labor sempre genial do diretor sueco incorporando estas três protagonistas amarguradas com invejável afinco, concedendo-lhes, em iguais e intensas doses, uma emoção enormemente palpável tanto nos seus gestos e reações mais mínimas e contidas quanto nas mais explosivas e extravasadas. E, por falar em personagens, grande parte da análise e da crítica que é abordada no argumento de “Sonata de Outono” foi montada por Bergman explorando o comportamento e os atos de uma personagem apenas: se por um lado Charlotte foi concebida como um poço dos sentimentos, atitudes e reações dos mais reprováveis, devido à displicência e aversão disfarçadas mas implacáveis que nutria por seu marido e filhas, tudo servindo ao intuito de que o diretor expiasse a que níveis o egocentrismo, o egoísmo, a indiferença e insensibilidade podem existir em uma relação na qual a oferta de carinho, amor e compreensão seriam mais certos, por outro lado, ao ser caracterizada como alguém incapaz de oferecer amor genuíno e desviar seu olhar de seus próprios e objetivos e de suas eventuais frustrações, ela acaba também materializando uma crítica à imposição das convenções sociais - um tema recorrente no cinema do diretor -, já que, para uma mulher como Charlotte, a constituição de uma família é uma ruína previamente declarada para si e para aqueles que dela farão parte.
Do trabalho e auxílio de cada um destes elementos temos um filme onde o foco de Bergman, uma vez mais, concentra-se em revelar a vida como palco de um sofrimento que, se não é interminável é, ao menos, bem mais certo do que a tão almejada felicidade: produto de frustrações, dramas, amarguras e mágoas que acumulam-se sorrateira e silenciosamente, este sofrimento tão espetacularmente exposto pelo diretor sueco faz apenas aguardar de modo silencioso o momento de solapar traiçoeiramente a frágil, débil felicidade que tentamos salvaguardar grande parte de nossa existência. E, após sofrer com as chagas deixadas pela sua impiedosa chegada, tentamos nos agarrar a esperança de que, um dia, ele dará lugar a felicidade, que julgamos ser possível reconstruir dos cacos que esta acabou miseravelmente se transformando. É inútil: para Bergman, o sofrimento é a constante da vida.
Baixe o filme utilizando os links a seguir.
OBS: legendas embutidas em inglês.
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Documentário de 1989 que apresenta como valores, idéias, conceitos e teorias foram encadeados e tomados de forma cada vez mais radical até resultar no movimento Nazista e no sonho de dominação, purificação e embelezamento do mundo pelo Império Alemão.
Em 2001, antes de sua banda, o The Cardigans, embarcar na mistura de rock com uma pitada de country que resultou no emocionante disco “Long Gone Before Daylight”, Nina Persson já ensaiava em seu único - até hoje - projeto independente o estilo que influenciaria a brusca mudança na sonoridade da banda sueca. Junto com a produção de Mark Linkous, do Sparklehorse, Nina compôs as canções do que foi simplesmente chamado de A Camp, um apanhado de canções por vezes agitadas, em outras melancólicas e sensíveis. O maior exemplo deste último estilo, presente no disco, é “Algebra”, em cujos vocais Nina atinge seu ápice emocional, cantando cada verso com imensa doçura e paixão. Com letras em que uma mulher conta como um homem, apesar da aparência contida e centrada, tinha seu coração “fora do peito” - tamanha era a maneira como não conseguia conter seu amor -, o violão dedilhado com suavidade e a bateria ao mesmo tempo forte e terna incrementam a docilidade da canção. “Frequente Flyer”, sobre uma mulher que não lamenta nunca conseguir ter um paradeiro devido à sua volubilidade afetiva, é igualmente grandiosa em sensibilidade e ternura, apresentando mais vocais delicados de Nina trabalhando perfeitamente com a melodia de bateria suavemente cadenciada e guitarras e teclados lentos e sôfregos. “Elephant”, que fecha o disco, prossegue remando nos infortúnios amorosos, já que em suas letras Nina reclama ter desperdiçado tanto amor com um homem que termina uma relação de uma forma tão sardônica. A bateria continua em uma cadência forte e lenta e os pianos e riffs de guitarra graves e dramáticos ganham mais importância à medida que a canção chega à sua apoteótica sequência final.
O voz do sueco Jay-Jay Johanson não assemelha-se à tonalidade de minha preferência, no que se refere à voz masculina: Johanson tem uma voz e maneira de cantar que lembra o britânico Morrisey, por exemplo. Contudo, no que tange aos arranjos de seu mais recente disco, The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known, as influências parecem ser outras: não fosse ali um homem cantado, com uma certa dose de lirismo distante, em certas faixas você acreditaria piamente estar ouvindo o mais novo álbum do Portishead, que não lança nada há dez anos. O mesmo negrume e a morbidez saudosista do conjunto britânico, com doses cavalares de baixos cavernosos, riffs de guitarra e pratos de bateria sampleados, além programação eletrônica que abusa do low-fi e de orgãos lúgubres, encontramos em “Jay-Jay Johanson Again” - na qual o cantor declara não tolerar mais insatisfações afetivas -, “Time Will Show Me” - em que Jay fala que segredos, no amor, não duram muito tempo - e na balada melancólica “Coffin” - sobre um homem que, perdido em uma ilha, também perdeu a sua companheira.
A sueca Jenny Wilson cantou, compôs as músicas, tocou todos os intrumentos e também produziu o seu disco de estréia, Love and Youth. Jesus, mais indie e alternativa do que isso só uma banda da Sibéria que toque berimbaus. Porém, não se assustem: ela fez tudo isso porque sabia que tinha cacife para tanto. Love and Youth é um disco de canções pop/folk que não te surpreendem de imediato, mas que vai construindo o seu espaço devagar no ouvinte. Duas faixas do disco, “Let My Shoes Lead Me Forward” e “Bitter? No, I Just Love To Complain”, se destacam por dividirem a mesma tônica nas letras e melodias: liricamente, ambas as canções falam sobre a resistência e a recusa em seguir regras e princípios - a primeira o faz ao recusar o que aprendemos em convívio durante nossa vida, a segunda concentra-se em recusar de modo sarcátisco e irônico os padrões estabelecidos pela indústria da música -; com relação a música, as duas apresentam uma ambiência pop mais animada, baseada em programação eletrônica variada dos teclados, e um vocal em falsetto durante toda a faixa. Mas a unidade da maior parte das músicas no disco é indicada pelo título do álbum, que não é puro acidente: o tema dominante são as desventuras juvenis, bem como o amor, sempre sob o ponto de vista sarcástico da compositora. Aí se encaixam o pop-rock baseado em guitarra e bateria ligeiras de Love and Youth, que em suas letras descreve com enorme apuro o universo escolar e seus personagens sempre marcadamente caricaturais, o folk-rock de violão e guitarra macios de “Common Around Here”, que narra os rituais de comportamento que fazem os jovens serem aceitos em grupos distintos, e a balada de programação eletrônica e guitarra tristes de “Those Winters”, que trata de um jovem que, aparentemente, é surrado pelas crianças da vizinhança. Contudo, Jenny não ocupa-se tão somente do mundo das amarguras juvenis - há bem mais do que isso em Love and Youth. Em “Would I Play With My Band”, balada de linda suavidade, baseada em programação de tecitura delicadíssima no teclado e em acordes rápidos e sutis de guitarra e violão, uma mulher pergunta-se sobre os caminhos que teria percorrido caso seu grande amor não tivesse morrido. Por outro lado, “Love Ain’t Just a Four Letter Word”, que tem melodia baseada em piano, guitarra, teclado e bateria de acordes e toques graves, breves, mínimos, fala de maneira irônica sobre os efeitos que o amor tem na personalidade de um apaixonado.
