Duncan Sheik - Phantom Moon. [download: mp3]
21 de August de 2008
Eu já disse por vezes aqui que alguns artistas e discos levam tempo pra crescer entre minhas preferências. Alguns eu conheço e ouço há anos, mas quando perguntado do que eu gosto, não chego a citá-los prontamente porque não atingiram ainda o ponto em que podem ser considerados artistas favoritos. Contudo, há pouco um deles saiu da minha lista de ostracismo cultural e se aproximou dos que perfazem as minhas preferências - o cantor e compositor americano Duncan Sheik. De todos os discos que lançou, só ouvi até hoje seus três primeiros álbuns - onde seu trabalho exibe uma enorme atmosfera pop/folk -, e apesar de que Humming é o que mais escutei, foi Phantom Moon que me fez olhar novamente para o artista, de lá de seu local de repouso na minha cultura musical. O disco é um trabalho requintado e cuidadoso tanto de melodias quanto de letras - estas, por sinal, escritas pelo dramaturgo e poeta americano Steven Sater -, nas quais ainda que variem consideravelmente em tonalidade e intensidade, acabam por compor um todo de homogênea melancolia. Na faixa “Mouth On Fire”, por exemplo, para transmitir na melodia a mesma magnânima estupefação do eu lírico das letras - que vê tudo o que entende e crê perder todo o seu sentido diante do que vive no momento -, Duncan pôs em serviço violões de acordes suplicantes e ligeiros para trabalhar com bateria, arranjo de cordas e com as várias camadas de seu vocal, construindo uma música que só reduz sua densidade melódica sôfrega no seu último minuto e meio. É justamente o oposto do que nos é apresentado em “Lo and Behold”, onde o cantor e compositor se utiliza de piano, orquestração de cordas e da beleza inequívoca de sua voz jovem, macia e pungente para, de modo supremamente fabuloso, construir na música e nos sentidos do ouvinte um crescendo melódico que suplanta de modo inevitável todas as suas sensações - algo que condiz com as letras, inspiradas na enorme emoção de Simão ao ser apresentado à Jesus no no templo de Jerusalém, passagem do evangelho de São Lucas. Em outras canções, no entanto, a variação é menos intensa, já que Sheik cultiva uma sutileza maior no andamento delas. Exemplos disso estão na melodia fulgurante de “Time and Good Fortune”, que com matizes criadas por violas, bateria e orquestrações evoca a placidez de um cenário bucólico esplendorosamente invadido pelos raios do sol, na cadência suave e gentil da guitarra, bateria e piano da balada “Far Away”, que exibe o calor ameno de uma paixão madura, na perfeição do compasso folk/rock graciosamente vigoroso entre violões, órgão, percussão e vocal da faixa “A Mirror In The Heart”, que imprime sensações de revelação e urgência, e na plangente serenidade dos violões e do vocal de Duncan em “Requiescat”, que explora sonoramente a mesma resignação da súplica, nas letras, pela paz de espírito de alguém que se foi, e pelo equilíbrio de quem ficou.
Phantom Moon é nitidamente daqueles discos que não se repetem na carreira de alguém - ficam lá aprumados em sua inatingível superioridade, resultado de um momento ímpar no qual o artista encontra-se imbuído de uma inspiração inigualável. Ao mesmo tempo que isso é uma verdadeira preciosidade para um músico, pelo simples fato de que tal obra foi concebida, também se converte em um empecilho, uma vez que dificilmente se consegue superar, ou mesmo atingir, igual nível de qualidade em obras posteriores. Mas essa busca é, felizmente, o “santo Graal” que é a força-motriz por trás de todas as expressões artísticas, o alimento mais que necessário para sua continuidade.
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Apesar da americana de traços orientais Vienna Teng já dispor de três discos na praça, resolvi, como geralmente faço, ter o primeiro contato com suas canções ouvindo seu mais recente lançamento, Dreaming Through the Noise. E, se você se permitir uma avaliação apressada e sem muita atenção deste disco de Vienna, vai encontrar em faixas como “Transcontinental, 1: 30 A.M.”, devido à sua percussão, piano e vocais brandos, as marcas para classificar a artista como pertencente aquele jazz silencioso, meditativo e um tanto esnobe que faz a alegria de muitos críticos. Mas isso seria realmente um erro: a verdadeira identidade das composições desta americana emerge depois de algum tempo dispensando atenção cuidadosa às suas melodias. Só então percebe-se a sutil variedade musical da cantora e compositora americana: há algumas passagens de inspiração um tanto country - como no modo rústico, levemente campestre, do piano, da viola e do bandolim, de “City Hall”, bem como na presença dos vocais de fundo, bem à moda do gênero - outras de sutil calor pop - como acontece nas faixas “Love Turns 40″, na sua sequência final, aquecida pelo bandolim ligeiro, pelo piano adocicado, pela orquestração grandiosa de cordas e metais e pela bateria mais encorpada, e em “Whatever You Want”, com piano, percussão, cordas e vocais que tocam com carinho e maciez os ouvidos, da mesma forma que a areia fina da praia toca nossos pés -, além de melodias que bebem em influências eruditas - como acontece em “Now Three”, cujo conjunto piano, violino e violoncelo dá vazão à uma música de beleza inominável, que só consigo descrever como imensamente delicada, terna e afetuosa, assim como o são seus versos, que retratam o estado de encantamento de uma mulher pela vida que está gerando dentro de si. E apesar do manso fascínio que estas faixas tecem nos ouvidos de quem as escuta, Vienna guarda o melhor de seu trabalho neste disco para o fim, arrebatando o ouvinte com a poética dos versos e das melodias de “Pontchartrain” e “Recessional”: enquanto nos versos da primeira Teng descreve o cenário de desolação e desgraça deixado em New Orleans pelo furacão Kathrina, recheando a percussão e arranjo de cordas de mistério e drama e desenhando na ponte melódica uma referência à música sacra com o uso de acordes do piano e vocais etéreos, na última faixa ela nos entrega um delicado rito de despedida que relata, de forma impecável, as impressões e sensações de alguém que observa a partida para muito longe de alguém que tanto ama, sonorizando-o com piano, percussão e contrabaixo amenos, além da guitarra e metais pontuais que laceiam a melodia impecavelmente.
Entre as figurinhas arredias da música mundial, Madeleine Peyroux é atualmente a representante americana nos círculos do jazz. No entanto, talvez o termo mais adequado não seja nem “arredia”, mas “displicente”, visto que a forma como ela preferiu jogar-se na anonimidade das ruas de Paris com seu violão, sem qualquer preocupação de divulgar decentemente seu elogiado disco de estréia, têm mais a ver com não dar muita atenção à fama e ao crescimento no mundo artístico do que se esconder acintosamente dele - mas estranho é que, seja arredia ou displicente, nada na sua musicalidade dá qualquer pista sobre isso, já que o seu apuro e cuidado extremos ao compor arranjos e ao tornar o seu vocal o mais límpido possível correspondem mais à uma artista metódica e “caxias” (é assim que se escreve?) do que à uma porra-louca impulsiva. Ao menos é isso que senti ao ter contato com os arranjos das canções - todas regravações - do seu segundo álbum, pois ela e seu produtor, Larry Klein, tiveram o cuidado de arranjar as melodias para que os intrumentos se integrassem de modo cauteloso, sem que nenhum deles usurpasse a sonoridade de outro. Assim é em “Dance Me To The End Of Love”, que celebra a dança como expressão e caminho para toda a beleza e para o amor e apresenta a voz suavíssima de Madeleine em perfeita homogenia com a sedosidade do contrabaixo, da percussão e do piano, cujos acordes dão charme vísivel à canção, em “Don’t Cry Baby”, um country-blues que suplica pelo perdão e pelo recomeço, a guitarra carrega o arranjo sem nunca abadonar a discrição, acompanhando respeitosamente os toques cálidos e malemolentes do orgão e piano, em “You’re Gonna Make Me Lonesome”, sobre alguém que antecipa o mal que lhe seria feito se seu amor lhe abandonasse, as sonoridades do contrabaixo, do piano, da percussão e da guitarra soam tão aveludadas e lânguidas quanto o vocal de Peyroux, e em “Between The Bars”, onde a instrumentação soa inegavelmente felpuda, desde a percussão até as notas formosas ao piano.
Em seu segundo álbum, Rufus Wainwright já vinha demonstrando todo o requinte da poética de suas letras e de suas composições fartas de instrumentação. O álbum do genial cantor, pianista e compositor canadense começa com a irônica e divertida “Cigarettes And Chocolate Milk”, que cita os vícios do cantor, dos mais ingenuamente nocivos, como os itens que entitulam a música, aos mais pesados, que, deliciosamente, Rufus diz em sua canção que por diversas razões não citaria. A melodia tem tremanda docilidade, utilizando, como é comum na musicografia do artista, boas dosagens de piano, orquestração em cordas e teclados suaves. O vocal do cantor brinca com a ironia da letra, deixando-a ainda mais sarcástica - a música é tão irresistível quantos os vícios que ela cita. “Greek Song” é intensamente lírica: a melodia é uma verdadeira orgia orquestral, utilizando uma imensa variedade de instrumentos que constroem uma melodia de sutiliezas orientais e de espetacular grandeza sonora, e a letra é de uma poética impressionante, sobre um homem que fala como seu amante o excita e o seduz e propõe à este uma vida de liberdade e paixão. “Poses”, faixa título do álbum que inicia com um piano tão triste quanto o vocal do artista, acompanhando melodia melancólica e vagarosa, ganha tonalidades mais grandiosas, mas ainda tristes, à medida que a letra, novamente de uma beleza poética esfusiante, avança. E esta trata do mundo das poses, das grifes, das aparências e também, de decadência. “Shadows” tem tecitura melódica pop mais animada, com guitarra, baixo, bateria e programação eletrônica que iluminam a melodia - claro, as orquestrações, soberbamente deliciosas, não faltam aqui. A letra, feita de versos de delírio pop-romântico, tem mais simplicidade do que a das canções anteriores. Na faixa seguinte, “California”, Rufus ironiza todo o glamour da terra das estrelas americanas, mostrando que seus fascínios são tão pueris e falsos que prefere ficar dormindo à viver isso. A melodia, assim como na faixa anterior, envereda por um pop bem animado, recheado de violões de acordes rápidos, bateria cadenciada, backing vocals e de um Rufus aproveitando cada verso de sua música em um cantar vívido. “The Tower Of Learning” é uma das canções mais lindas de Rufus: sua melodia melancólica é construída em um crescendo esplendoroso, baseado em piano de acordes dramáticos, vocais sobrepostos e programação eletrônica lindíssima, que surge espetacular na metade final da canção. A letra é simplesmente uma obra-prima lírica, que utiliza as belezes de Paris como constrate com a profundo sofrimento afetivo do eu lírico da canção - difícil não chorar diante de tamanha beleza. “Grey Gardens” começa com uma fala feminina, logo sobreposta pela melodia viogrosamente pop, com farto uso de acordes de piano e teclado e complementação sonora de bateria, guitarra e baixo. Assim como em “Shadows”, a letra é mais simples, uma canção de amor sem tristezas, apenas exposição de desejos e delírios amorosos. “Rebel Prince” é mais um dos primores dee Rufus: a melodia inicia-se algo quieta e introspectiva, para logo surgir mais vistosa e apaixonada, combinando com o vocal doce e repleto de amor do cantor. A letra combina versos em inglês com trechos em francês, e fala sobre um “príncipe rebelde” que é o pretenso e algo ilusório objeto de amor de quem canta - é uma canção elegantissimamente soberba. “The Consort” tem piano, violões e vocais pesarosos e um pouco sorumbáticos, ganhando metais regenciais na sua sequência final. Na letra, o fiel, solícito e resignado companheiro de uma jovem rainha tenta incentivar-lhe em sua dura caminhada. A faixa seguinte, “One Man Guy”, tem melodia triste baseada apenas em vocais e violão, ambos totalmente dentro do estilo country. A canção, originalmente composta pelo pai de Rufus - que é um artista da música country - é feita de versos de um homem que revela o quão solitária sua vida é - a versão de Rufus é fantástica. “Evil Angel”, em cujas letras alguém revela a sua paixão e seu amor ferido, tem melodia grandiosa, em mais um crescendo vigorosíssimo, produzido pelas orquestração de cordas algo sinistras a lá trilha de suspense e que explodem épicamente com os metais, a primorosa programação eletrônica e o vocal gritante, sem medo, de Rufus - mais uma canção espetacular do artista canadense. A penúltima faixa do disco é “In a Graveyard”. Com melodia simples e delicada, produzida apenas pelos acordes doces e tristes do piano e o cantar emotivo de Rufus, a letra fala sobre as divagações filosófico poéticas de alguém que já se encontra morto mas que conclui feliz, sabendo que um dia voltará à vida. Fechando o disco, temos uma versão alternativa, com uma programção eletrônica mais pop, da primeira faixa do álbum, “Cigarettes And Chocolate Milk”.

