Muse na Paulicéia Desvairada.
3 de August de 2008
Vamos pela cronologia dos acontecimentos.
Transporte por metrô é mais simples e divertido do que eu pensava. É comprar o ticket, consultar suas estações e baldeações, quando necessárias, e pegar o dito cujo. Se você perde um quando está descendo de outro, não dá nem tempo de vociferar enputecido “Porra! Caralho!” que já para outro logo na sua frente. Minha única crítica fica para o fato de que não há um aviso luminoso em um letreiro de qual estação o metrô está fazendo a parada, só há a comunicação em voz do condutor do carro - aí não tem muito como você ficar em paz ouvindo música no iPod, já que tem que ficar atento ao aviso ou de olho em qual estação você está no momento.
E subi ao centro de São Paulo.
Intervalo para os comerciais: como me disse pessoalmente o Zé, a Paulista é só uma Avenida, a Alameda Santos é lindamente arborizada mas cheia de gente que só vive de aparências e a Frei Caneca e a Rua Augusta…err, prefiro não comentar. São Paulo é uma metrópole - de um modo ou de outro, todas as metrópoles são iguais: interessam culturalmente, mas tirando-se isso só resta…a metrópole…com todos os seus problemas e sua feiúra explícita. E já que falei em cultura, diga-se que o que valeu mesmo na cidade foi as duas horas dentro do Masp - um acervo de respeito com um curadoria bem interessante, capaz de alinhar diferentes obras em uma única temática para montar uma exposição. De resto, não vi quase nenhuma atração de São Paulo. A ponte Estaiada é enorme, o Theatro Municipal é lindo, o Viaduto do Chá uma graça, a Estação Júlio Prestes um arroubo, o Minhocão é medonho, mas vi isso tudo no melhor estilo city tour - uma prática turística que, todos sabem, nasceu inspirada na famosa piada dos dois tomates atravessando a rua.
“Olha, o teatro! Que lindo!”
“Teatro?!? Onde?”
Você se sente um retardado porque não viu nada.
Vamos nos encaminhando ao grande evento. E pra chegar lá eu usei os trens. Ainda que seja um transporte interessante, há mais críticas que elogios. Alguns carros são o diabo de lentos e suas chegadas e partidas não são tão frequentes quanto as do metrô. Por conta disso, achei que assentos nas estações seriam mais do que necessários, mas não havia nenhum por onde passei - lamentei aquele mundo de gente, que passou o dia inteiro trabalhando e ainda fica uns 20 minutos em pé esperando chegar o próximo carro. E por falar na quantidade de pessoas, é mais gente querendo entrar na condução do que espaço dentro dela - é um tal de empurrar pra ver se entra, e um tal de se ficar espremido no meio de uma pá de gente que você já repensa o status do ônibus no mundo do transporte urbano. Mas há um elogio: ao menos nas estações pelas quais passei, só vi oficial de polícia de encher os olhos d’água - de onde tiraram aqueles homens lindos pra ficar cuidando de estação de trem, e para quê, eu não faço idéia. Deve ser pra manter todo mundo anestesiado pra evitar qualquer menção de um incendiamento básico nos coletivos por protesto. Engraçado que, em uma das vezes que tentei fazer algum malabarismo em meio aquela vida de sardinha pra ver a cara do policial que estava quase encostado na janela do trem, percebi que o rapaz que estava na minha frente fazia exatamente o mesmo. Ele se deu conta pelo reflexo na janela que eu notei e tentou disfarçar, mas eu olhei pra ele, que era o tipo de suburbano do qual você não esperava tal ato falho e pensei: “Considere isso uma lição. Na próxima seja mais discreto.” E desci para ver o show do Muse.
Esperando para entrar fiquei conferindo a fauna da fila: diferentemente do que possa acontecer com outras bandas, achei os fãs do Muse uma gente com a cara mais normal do mundo, muito distante da bandalheira poser que integra o público de muitas bandas da atualidade - é sem dúvidas um pessoal interessante, que entende de música, vestido com bom-senso, tranquilo e inteligente. Ah, e tem um plus aí: e não é que tem um número considerável de gatos em meio aos fãs dos britânicos? Eu topava casar com pelo menos uns 15 dos que cheguei a ver na fila - porque vamos combinar que homem bonito e com bom gosto musical é o mesmo que ganhar na loteria.
E adentrei o recinto. Do lugar onde fiquei, no segundo andar da casa, a visão do palco era fantástica - pensei imediatamente que valeu cada centavo gasto no ingresso pra não estar vivenciando por horas na pista o mesmo que vivenciei no trem. Agora era esperar o show começar. Logo a turma lá embaixo, que ia entrando em doses homeopáticas até lotar a casa, pouco antes de Muse entrar no palco, ensaiou uma animação. Como era cedo eu pensei, “mas, quê??”. Aí lembrei que, na fila, ouvi do senhor dono da comunidade Muse Brasil no Orkut, que estava logo a minha frente, que Jay Vaquer ia fazer a abertura. Pensei, “Ai, porra. Canta metade de uma música, diz obrigado e vaza, faz favor!” Mas foi mais do que uma música - uns 30 minutos, eu diria. As canções do rapaz até que são bacaninhas e ele canta bem, mas elas tem um ranço daquele rock “adolexentchí” que infesta o mundo hoje, o rapaz tem péssima presença de palco e vez ou outra ele desafina um bocadinho - mas admito que ele pode surpreender com o vocal, já que em certo momento ele ajoelhou e segurou um falseto estridente que eu pensei que a bicha fosse explodir em pedacinhos no palco. “Tá, viado. Você já apareceu. Agora sai, coadjuvante”, pensei. E o público foi simpático e agradeceu - inclusive eu, civilizado que sou.
Ainda bem que foi até rápido tirar a tralha musical do rapaz e arrumar o palco para a verdadeira atração da noite. O montagem não era nada mais além de um telão e os instrumentos do trio britânico. E não era preciso mais do que isso mesmo: quando a banda entrou, ao som de uma peça clássica fantástica, todo mundo, inclusive eu e a adolescente que estava sentada na mesa comigo, acompanhada dos pais modernetes, caiu numa histeria-êxtase-delirante-coletivo. Minha garganta já estava baleada com a rinite recente e a poluição de São Paulo, mas pensei: “Meu, foda-se a minha garganta! Eu vou é gritar e cantar o show inteiro feito um condenado à morte estrebuchando nos seus últimos estertores de vida”. E com o quê, por deus, eles abriram a apresentação? “Knights of Cydonia”. Eles queriam ver toda a área VIP desabar em cima do público logo no início do show, ah, queriam. Se eu morresse na queda, só ia morrer infeliz por não ter visto o show inteiro - porque morrer ao som de “Knights of Cydonia” é uma morte dignamente apoteótica, fiquem sabendo. Apesar de tremer feito o território da China, o segundo andar não caiu na geral e pude conferir porque os três garotos britânicos foram apontados por deus e o mundo na crítica musical como os detentores da melhor apresentação ao vivo no rock da atualidade em todo o planeta. Matthew Bellamy parecia ainda mais baixo e magrinho naquela camisa vermelha, mas na hora que o rapaz abre a boca e toca na guitarra, cresce feito Golias e ninguém consegue fazer outra coisa se não cantar com ele cada verso da canção, chegando ao ponto até de cantar o incantável na faixa de abertura, imitando a guitarra com a voz - e isso se repetiu por várias vezes durante o show, incluindo aí imitação de piano, baixo e bateria. Uma demonstração de que o público há muito esperava por ver os rapazes no Brasil - e a banda notou isso, respondendo com uma energia fabulosa no palco.
Matthew exibia-se enlouquecido na guitarra e piano, mostrando uma destreza inigualável, Cris, mesmo sendo o mais fleumático e tímido da banda, sapateou no baixo e fez o público perder as estribeiras no backing vocal da eletrizante “Supermassive Black Hole” e Dominic só faltou usar a cabeça como baqueta na bateria, exibindo uma habilidade nada menos que formidável - por sinal, ele mostrou-se, como já era esperado por todos, o mais comunicativo da banda: além de soltar diversos “obrigado”, Dominic ainda fez questão de ir ao microfone antes de deixar o palco para agradecer toda a vibração do público - que, obviamente, entrou em um estado “gozante”, se é que ainda havia o que gozar depois de duas horas de um show que não foi menos do que irresolutamente impecável, cujo setlist concentrou-se em faixas dos discos Origin of Symmetry, Absolution e Black Holes & Revelations. A vibração foi tamanha, tanto do público quanto da banda, que eu pensei várias vezes durante o show que quem estava lá fora do HSBC Brasil devia pensar que aquilo era uma arena romana, tomada por loucos que estavam entregando centenas de pessoas para ser devoradas por leões lá dentro. Ou pensava que aquilo só podia ser a gravação de um filme pornô apresentando uma suruba com pretensões de figurar no Guiness Book como a mais numerosa da história. E eu não duvido que a rua não estava tremendo devido ao incessante pulo sincronizado do público que lotou do primeiro ao último andar da casa.
A viagem foi sofrida, mas Muse ao vivo foi, assim, como vou dizer, uma experiência de vida - fez todo o esforço valer a pena e ainda fiquei com saldo a dever. Por isso é que eu digo: ser mãe o caralho - a melhor sensação do mundo é mesmo a de conferir um espetacular show de rock, porra.
Câmbio, desligo.
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Hoje à noite estarei saindo rumo à São Paulo para conferir um dos shows de rock mais esperados que já tenho notícia: a apresentação de amanhã, no HSBC Brasil, da banda britânica Muse, um trio fabuloso formado por Matthew Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard. Não espero nada menos do que uma apresentação espetacular, de causar uma histeria coletiva no público, recheada de lágrimas e gritos de euforia absoluta à cada ápice sonoro das composições do trio. Apesar de conhecer muito bem a banda, o show vai ser uma completa surpresa para mim: não me informei sobre as características desta turnê, sobre o possível setlist, sobre a expectativa da banda, sobre absolutamente nada. Não quero, de forma alguma, ter uma programação prévia sobre o que vai acontecer durante o evento - quero é desfrutar da sensação de surpresa a cada momento da apresentação. Eu me conheço: assim o acontecimento vai ficar bem mais registrado na minha memória.
Projetos musicais que reúnem cantores e bandas em prol de caridade ou causas sociais acabam nunca interessando de fato porque os artistas ligados ao projeto não se dão ao trabalho de produzir algo que tenha realmente qualidade, se contentando com covers ou, quando muito, liberando algo que não passou pelo seu próprio crivo. Mas a coisa pode ser ainda pior quando aquilo que vai ser produzido reúne os artistas em parcerias desiguais e sob as amarras criativas do tema em questão - geralmente causas sócio-ambientais. Felizmente, mesmo que algumas coisas acabem não sendo exatamente um atrativo, esse não é o caso do projeto, “Love Cartier” com o qual acabei me deparando há poucos dias, uma iniciativa bem pensada da famosa joalheria francesa que, como já indica o nome, tematiza sobre o amor. Parte de um projeto que inclui a produção e venda de jóias cujos ganhos são revertidos para a caridade, a “perna” artística do projeto compreende o lançamento gratuito na internet de 12 canções compostas e interpretadas, em sua grande maioria, por artistas da nova seara de música independente. E, devo confessar que muitos deles eu sequer tinha ouvido falar na minha vida. É o caso do britânico Dan Black, que contribuiu para o projeto com “Liz And Jonny”, um pop/rock com uma programação e um riff no teclado compondo uma síncope bem desenhada, daquelas realmente pegajosas que fazem o ouvinte entoar a letra em falsetes semelhantes ao timbre do vocal de Black, tamborilar os dedos no ritmo da música e fazer um beat-box imitando a pegada da bateria sem se dar conta. Outro ilustre desconhecido para mim é Hawksley Worksman, que trouxe para a coletânea de músicas da Cartier a faixa “The Ground That We Stand On”, uma balada muito inspirada e emocionante, com fartura de vocais de apoio ampliando o lirismo da melodia, acompanhados de um arranjo feito de toques firmes porém doces tanto nas cordas do violão quanto na superfície da bateria e percussão, além de algumas sintetizações que agem como uma cola, unindo todos os elementos sonoros sem deixar qualquer fresta. Pauline Croze, por sua vez, não é exatamente uma desconhecida para mim, mas como nunca tinha me dado ao trabalho de conferir alguma composição sua, acaba dando no mesmo. “Sur l’écorce” é a faixa que compôs para a Cartier, uma canção onde os acordes das várias e diferentes camadas de guitarra soam tão metálicos, agudos e um tanto rústicos quanto o é o vocal da cantora francesa, o que resulta em uma canção que causa estranhamento à primeira audição, mas que ganha simpatia depois que lhe é dada mais atenção.
O segundo disco da banda de Joan Wasser não encanta tão prontamente quanto o primeiro, principalmente porque algumas poucas canções, como “Magpies”, um pop-soul setentista com direito inclusive aos vocais de apoio e arranjo de metais que remetem ao estilo da época, ensaiam conquistar o gosto do ouvinte mas se perdem tanto em descaminhos melódicos tão inócuos e aborrecedores, quando não absolutamente irritantes, que acabam interferindo na apreciação adequada das demais faixas do disco. No entanto, superada a irritação que essas canções causam por algum tempo, as outras faixas revelam logo os seus enormes predicados, algumas de modo lento e crescente, liberando paulatinamente sua beleza à cada apreciação - é o que acontece com “To Be Loved”, faixa que envereda de modo mais sutil no mesmo pop-soul nostálgico de “Magpies”, mas que é mais feliz ao ser balanceada com um teclado de cores quentes e um piano de notas graves, ambos dedilhados de modo suave e apoiados por uma guitarra e bateria que aquecem discretamente a melodia tanto quanto o próprio vocal macio de Joan -, outras de modo mais imediato e impactante - como “Holiday”, que une acordes deliciosos no violão, no piano, e na bateria para compor uma melodia ao mesmo tempo ágil e graciosa, que cede bastante espaço para a voz encantadora da cantora americana. Sempre inspirada por referências musicais de décadas passadas, Joan é capaz de compor faixas que lembram desde a romântica melancolia da “new wave” do final dos anos 80 e início dos 90 - falo aqui da esplêndida “Start of My Heart”, cuja música é guiada por uma bateria e baixo de cadência lenta, salpicada por uma guitarra de acordes extensos e serenos e preenchida por uma sintetização que cria ondulações ao ser continuamente sobre e sobposta à instrumentação restante - até ao glamour do pop americano que sonorizou bares, discotecas e qualquer festa que se prezasse há cerca de 40 anos - claro que me refiro à faixa “Furious”, marcada por um compasso ligeiro de bateria e teclado, reforçado por piano de acordes dramáticos e prodigiosos e um coro de palmas que recheia o fundo da melodia, além dos vocais adicionais que adensam ainda mais o nostalgia sonora - tudo, porém, com um sendo de naturalidade e graça que torna esse caldo saudosista algo de muito bom gosto. No final do disco ainda sobra ânimo para um dueto delicioso com Rufus Wainwright em “To America”, que é introduzida por um piano algo desolado e logo subvertida por um arranjo fabuloso que toma de assalto a música com saxofones, guitarras e sintetizações enormemente melódicas e verborrágicas, fechando de modo brilhante este disco que, a esta altura, faz esquecer qualquer possível menção de tropeço que inicialmente o marcasse.
Com o que fez no álbum Le Fil, seu segundo disco solo, Camille Dalmais chamou tanto a atenção de crítica e público do mundinho da música alternativa que, não é exagero afirmar, alavancou para si o posto de maior sensação da música francesa nos últimos anos. Por esse motivo, o seu álbum subsequente vinha sendo aguardado ansiosamente pelos fãs que não sabiam o que esperar da francesa depois do experimentalismo pop de Le Fil. Com o lançamento de Music Hole nesta segunda-feira a curiosidade foi saciada: no seu novo projeto, Camille dá continuidade à exploração da musicalidade desenvolvida no disco anterior, que esquadrinhou, com temperança, as possibilidades da voz humana como instrumento melódico. Na canção “Cats and Dogs”, Camille mostra isso de forma deliciosa, povoando a segunda metade da faixa, até então constituída apenas de um piano de acordes doces e uma “tuba vocal”, com um almanaque de vozes que mimetizam festivamente toda uma variedade de grunhidos, gritos e urros do mundo animal: pássaros, porcos, elefantes, macacos, cabras, sem esquecer, claro, dos personagens que são a tônica da música - cães e gatos. Mas, além de retomar a pesquisa musical produzida até Le Fil, a cantora e compositora francesa adiciona ao seu repertório experimental a percussão corporal, um novo elemento melódico que incrementa ainda mais a experimentação desenvolvida por ela em suas composições. A utilização deste novo elemento na construção das melodias pode ser conferida em toda sua glória na faixa “Canards Sauvages”: para emular um samba frenético, Camille contou com a ajuda de participantes do grupo brasileiro Barbatuques, que tamborilaram no próprio corpo para produzir a sonoridade percussiva acelerada que faz a base da melodia, composta ainda de ruídos de água nervosamente agitada e de múltiplas camadas da voz de Camille - capaz até de simular uma impagável cuíca vocal.

