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“A Professora de Piano”, de Michael Haneke. [download: filme]

1 de April de 2008

La PianisteErika, rígida professora de piano de um conservatório vienense que mora com sua mãe, se vê cada vez mais enlaçada por um músico, também pianista, que insiste em tentar conquistá-la . É quando cede as investidas do rapaz, e revela suas preferências sexuais nada ortodoxas, que Erika perde o controle que até então tinha sobre sua vida íntima.
A primeira vista, “A Professora de Piano”, filme do austríaco Michael Haneke, parece centrar-se em investigar o sexo e a extensão de suas perversões através dos desejos da personagem Erika - resultado de mais uma interpretação esplêndida, já nos mínimos gestos e olhares, da elegante atriz francesa Isabelle Huppert. No entanto, quem já conhece a voracidade e visceralidade costumeira de seus filmes de crítica político-social já sabe de antemão que seria errado pensar que Haneke se contentaria em construir com seus personagens um compêndio do sexo fetichista - isso seria puro reducionismo. Baseando seu roteiro no livro de Elfriede Jelinek, o diretor vai mais fundo, escavando a superfície daquilo que decidiu explorar e procurando analisar, dentro desta temática, as consequências do cruzamento de personalidades e expectativas desencontradas: o envolvimento de Erika, mulher culta e sisuda, plenamente consciente de suas “peculiaridades” sexuais, com um rapaz que, além de confundir a solitária discrição com que mantém sua intimidade com uma frigidez secular, ainda por cima se mostra narcisista, o que o torna incapaz de compreender o prazer que não seja fruto do uso de seus atributos físicos, leva Erika à uma relação que pode trazer tudo, menos à satisfação dos seus desejos. Antes uma mulher razoavelmente equilibrada e inteligente, ao quedar-se apaixonada por Walter - encarnado por Benoît Magimel, perfeito como um sedutor nato -, Erika não apenas deixa sua percepção ser encoberta pela ingênua idéia de que este era o homem que tanto esperava e que compreenderia bem seus desejos, mas também dá vazão ao seu desequilíbrio, algo que, logo no início do longa, já é sugerido nos conflitos com a mãe - Annie Girardot, que dosa bem o misto de carinho e censura maternos - que sente algo de incomum na filha. É através da instabilidade gerada por essa abertura de Érika para um parceiro que ela não nota estar longe do adequado para satisfazer suas idiossincrasias sexuais que Haneke ilustra o cerne do argumento de seu filme: a idéia de que, para alguém que obtém prazer no sexo de modo tão complexamente incomum, a vida afetiva e sexual, via de regra, torna-se um campo absolutamente minado de ilusões, frustrações e armadilhas. Assim, para Erika, diante da dificuldade de achar o seu “oposto complementar”, infelizmente, o mais saudável era mesmo manter a velha rotina construída para satisfazer e alimentar seus fetiches de modo solitário.
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legenda disponível (português):
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“Caché”, de Michael Haneke.

18 de November de 2006

cachéCasal de classe média-alta recebe, certa manhã, uma fita de vídeo constando filmagem de longa sequência da entrada de sua residência, acompanhada ainda de um desenho obscuro de traços infantis. Não demora muito e outras fitas e desenhos sucedem-se, sendo que uma destas revela relação com as origens do patriarca da família. O apresentador de TV e sua esposa, ambos envolvidos com o mundo literário, sentem-se mais e mais ameaçados e intrigados com a origem das fitas e com as intenções de quem as produziu.
Juliette Binoche e Daniel Auteuil são as escolhas corretas para este que é o filme mais recente do alemão Michael Haneke. Os dois são atores excepcionais, capazes de desempenhar papéis de todas as gamas possíveis. Aqui, eles interpretam um casal culto de classe média alta, mas que tem, ao mesmo tempo, uma natureza ordinária - não são muitos os atores que conseguiriam unir estas duas diferente nuances no mesmo personagem. Saindo do mérito interpretativo, Haneke merece todos os elogios pois, como no seu filme anterior, arquiteta uma estória complexa que se esconde sob a abordagem clássica do cinema europeu. O que a primeira vista parece um argumento que explora a insegurança da vida urbana, mostra-se, em uma camada mais profunda, uma discussão bastante cara ao cineasta: a situação dos imigrantes na França deste início de século. Georges Laurent, o personagem de Auteuil, age baseado em motivações justas, procurando proteger sua família a todo custo, mas na tentativa de encontrar o mentor das fitas misterioras, Laurent define para si um culpado e, como no passado, humilha e recrimina alguém que já sofre e encontra-se em uma situação infeliz, sem nunca ter prova definitiva de que suas suspeitas procedem e suas ações justificam-se. Alguns poderiam afirmar que o personagem age deste modo porque encontra-se tão confuso quanto o expectador, já que Haneke não apresenta no filme respostas claras à estas indagações, porém não são as respostas às dúvidas surgidas a razão de ser de “Caché”, mas sim esta analogia, muito bem posta, entre as atitudes da França e dos franceses com relação à estrangeiros, particularmente aqueles originários das ex-colônias do país. “Caché” é excepcional em sua abordagem sociológica, mas também figura como um longa de expectação consideravelmente incômoda, devido à sua temática realista e seus conflitos eminentes e constantes. A decisão de não adotar trilha sonora durante todo o filme amplia o desconforto do expectador, potencializa o realismo da trama e aproxima-o ainda mais dos acontecimentos da estória. Além dessa secura na abordagem do longa-metragem, a maneira como Haneke exibe as filmagens dos cassetes, tomando a tela com as imagens destes, põe o expectador na mesma situação dos personagens que tem sua privacidade e segurança repentinamente ameaçadas - uma idéia que, combinada com a natureza do roteiro e de seus argumentos, explora magistralmente a relação entre filme e expectador, tornando esta relação insuportavelmente tensa, mantida em um desagradável suspense contínuo.
Haneke é, a cada filme, um dos cineastas europeus com a proposta mais consistente, aliada à uma técnica apurada e um gosto pela polêmica - não à de natureza gratuita ou leviana, mas a polêmica necessária, aquela que questiona e induz à reflexão. Além de muita coisa mais, cinema também é isso, uma maneira de despertar o pensamento humano sobre a realidade e a consequência de suas ações. Apesar de, até este momento, Haneke ter se mostrado um cineasta coerente, tenho que revelar que até mesmo ele rendeu-se aos encantos de Hollywood: neste momento, o diretor está finalizando uma refilmagem, com elenco americano, de um dos seus primeiros e mais contundentes longas, chamado “Funny Games”. Vamos torcer para que esse projeto seja apenas uma curiosidade singular e pessoal do diretor, e que ele retorne logo para continuar a produzir no seu continente natal, visto que, no cinema americano, dificilmente alguém consegue produzir algo tão relevante e complexo quanto seus dois últimos filmes.

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“Código Desconhecido”, de Michael Haneke.

27 de December de 2005

Code InconnuUma talentosa atriz que não sabe exatamento como lidar com as vulnerabilidades da vida humana. Seu namorado, um fotógrafo jornalístico que é igualmente incapaz e por isso passa a maior parte do tempo afastado e em meio à uma realidade mais cruel e miserável sem, no entanto, conseguir processá-la. Seu jovem irmão, petulante e irreponsável, incapaz de enxergar algo que não seja a si próprio. Seu pai, um homem embrutecido e que não consegue romper a armadura de insensiblidade que construíu ao redor de si e, por isso, não consegue estabelecer qualquer comunicação com o filho. Uma imigrante ilegal romena que encontra na mendicância a única opção para sustentar a si e sua família, da qual vive afastada. Um jovem imigrante africano que trabalha com deficientes auditivos e tenta lutar contra o preconceito contra os estrangeiros, em vão, obviamente.
Estes são os personagens do incômodo filme Código Desconhecido: relato inacabado de várias jornadas, do diretor Michael Haneke. Incômodo sim, mas de expectação urgente: impossível ser mais atual depois da recente onde de violentos protestos organizada por imigrantes e descendentes de imigrantes franceses. Mesmo utilizando recursos e técnicas comuns no cinema de arte europeu, como tomadas longas e sem interrupções, diálogos pontuados por silêncios gritantes, cenas cuja ação transcende o campo visual do expecatador, Haneke consegue prender a atenção pela lógica contrária à de qualquer filme: há momentos tão realisticamente incômodos que o expectador sente vontade de desligar a TV. Mas, sabendo tratar-se da causa desse sentimento a constatação dos fatos retratados no filme serem a mais pura realidade, ele toma coragem e continua a assistir. É uma espécie de catarse expectativa: nos sentimos obrigados a ver isso não porque achamos que vamos encontrar a solução para os problemas do mundo, estejam eles compreendidos em uma esfera mais sócio-universal (como o anti-semitismo e a miséria) ou pessoal (como a incomunicabilidade afetiva), mas para que possamos ter, ao menos, uma atitude mais compreensiva e paliativa diante de tudo. Se pensarmos apenas no mazelas sociais que o filme mostra - e já expliquei que ele não se contenta apenas com isso - e relacionarmos com a França de hoje, podemos dizer que Haneke foi profético: “Olhem como agimos, olhem o que está acontecendo. Não há o que fazer. É sentar e esperar tudo explodir pelos ares.” Foi o que aconteceu.
A direção é precisa e inteligente o bastante para deixar a ação ser guiada pelo elenco, excepcional. Julitette Binoche, como de praxe, está estupenda: mesmo quem não tem qualquer familiaridade com a atriz pode afimar, assistindo apenas este seu trabalho, ser ela uma das melhores atrizes do mundo.
Para fechar, fica apenas o registro de uma crítica, não à Haneke, mas aos profissionais do cinema como um todo: como ninguém descobriu ainda o ator francês Thierry Neuvic, que possui excelente performance e ainda por cima é lindíssimo??? Procurei na internet por imagens. Chega a ser vergonhosa a reduzida quantidade de fotos disponível dele. Não se fazem mais galerias de fotos na internet como antigamente. Tem gente que é cega mesmo…

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