Textos etiquetados como ‘literatura’

“Feriado de Mim Mesmo”, de Santiago Nazarian.

18 de September de 2008

Feriado de Mim Mesmo - Santiago NazarianJovem tradutor, que tem o hábito de passar a maior parte do tempo sozinho no seu apartamento, começa a desconfiar de que alguém o está invadindo, ainda que admita a possibilidade de que isso talvez seja fruto de sua imaginação.
O terceiro livro publicado pelo paulista Santiago Nazarian constitui-se em uma história econômica na exploração de espaço e de personagens, possuindo uma estrutura fortemente teatral. Mas enquanto qualquer obra desta monta tem como fundamento o diálogo entre os personagens, o livro de Nazarian prima pela exploração do diálogo internalizado, pela construção deste na mente do protagonista que habita sua história. Nela, o leitor é levado à um acreditar e desacreditar constantes, suspenso na atmosfera de uma narrativa que mesmo tendo os pés bem fincados no real explora de modo primoroso aquilo que aparentemente não o é - mas seria mesmo apenas aparente? Afinal, tudo - as impressões do “eu”, os vestígios do “outro”, as até um tanto inofensivas perturbações cotidianas - seria fruto de um estado de alteração perceptiva ou sintoma de um invasor sorrateiro?
É certo que muitas histórias já foram escritas versando sobre a substância com o qual “Feriado de Mim Mesmo” lida, mas a abordagem dada por Nazarian à esta substância é seu grande diferencial: este “monólogo mental”, por assim dizer, é fruto de uma escrita direta e sucinta, expressa em períodos curtos de caráter bastante objetivo que procuram a maior parte do tempo afastar-se de metáforas. Assim, essencialmente, “Feriado de Mim Mesmo” desenvolve um enredo que lida com a umidade complexa do psicológico paradoxalmente construído sobre a secura pragmática da linguagem realista.
Contudo, a consequência mais interessante que se obtém da leitura de “Feriado de Mim Mesmo” - ao menos na minha leitura - é outra: o jogo arquitetado entre as noções de biografia e ficção. Se iniciada a apreciação da obra depois de obtidas as informações sobre o seu autor em uma das orelhas do livro, haveremos de encontrar algumas prováveis similaridades entre o escritor e o protagonista da história, o que faz a leitura ser contaminada pela idéia de que a trama parte de alguns pressupostos biográficos. Porém, à medida que as páginas avançam os resquícios biográficos vão desmanchando suas formas, que passam a ser tomadas paulatinamente pela substância própria de uma ficção que alimenta-se destas, assimilando-as numa antropofagia narrativa visceral e violenta - não à toa a própria conclusão da trama materializa a noção antropofágica de modo bastante literal. É desta devoração da biografia pela ficção que nasce uma narrativa de dinâmica complexa, uma “ficção de si mesmo” que se utiliza dos artifícios tradicionais da literatura para subvertê-los em um jogo meta-ficcional e meta-literário que pulsa em uma esquizofrenia narrativa ascendente. É dessa forma que o sonho e pesadelo da produção cultural pós-moderna são materializados simultaneamente na escrita de “Feriado de Mim Mesmo” - um livro que ilustra com maestria como uma trama que lida com as conflitos e terrores do “supra-eu” contemporâneo podem interessar ao público, ao contrário do que foi feito no mais recente longa-metragem de Murilo Salles.

P.S.: Alguém me disse certa vez, não recordo se foi o ou o Pelvini, que faltava ao meu blog resenhas de livros. Bem, este é o post que inaugura minha tentativa de suplantar com sinceridade a minha vergonhosa preguiça de manter o hábito da leitura - também ofuscado pelas toneladas de músicas, filmes e informação ofertados na internet. Daqui em diante procurarei manter uma frequência razoável na publicação de textos sobre literatura - particularmente sobre livros de ficção.

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Alice no País da Ecologia.

10 de January de 2008

Alice no País da EcologiaNo ano passado, Knut, ursinho do zoológico de Berlim, virou estrela por conta da polêmica gerada por ativistas que defendiam o seu sacrifício, já que tinha sido rejeitado por sua mãe. Tsunamis de emails chegaram à administração do zoo. Zilhares - ou zilhões - de criancinhas espevitadas e turistas afoitos tomaram de assalto o zoológico para defender o direito do bichinho de sobreviver. E este direito foi aprovado, claro.
E não é que a história se repetiu?
Hoje, jornais e portais da internet do mundo todo noticiaram que uma ursinha do zoológico de Nuremberg - Alemanha, de novo - foi rejeitada pela sua mãe. A polêmica, novamente, se instaurou e ecologistas voltam a defender que se deixe a natureza seguir o seu curso - o que, neste caso, significa deixar que a mãe ursa devore as crias que julga que tem menos chances de sobreviver do que as outras.
Ok, lindo. Eu também sou a favor de deixar a natureza seguir o seu curso. Mas, por favor, me esclareçam: alguém aí concorda que estamos diante de um surto de retardamento coletivo dos ecoólogos do mundo? Alôôôôôô? Estamos falando de ursos confinados em um zoológico, por deus. Desde quando animais capturados e presos em jaulas e ambientes absolutamente simulados seguem o seu curso natural? Entendeu ou quer que eu desenhe e ponha legenda? As ecobestas dizem que o urso polar ser criado por um tratador, e não por sua mãe, é algo humilhante para o bicho. Tirando o fato de que o bichinho não entende lhufas da polêmica, e portanto sentir-se humilhado é bem difícil, eu pergunto que diferença existe entre um ursinho que bebeu de mamadeira direto no focinho e outro que mamou das tetas da mama e que, mais tarde, não escapa de ganhar comida só do tratador, jogada jaula a dentro quando o bicho pesar quase uma tonelada?
Eu só sei de uma coisa: é nesses momentos que descobrimos que nenhuma façção unida por uma ideologia, ou credo ou coisa que o valha, escapa de estar infectada pelo fanatismo acéfalo - do Islamismo ao Software Livre.

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Versão 5.0 Beta.

5 de September de 2007

seteventos.org 5.0 BetaAlém da mudança de design, que gosto de fazer mais ou menos a cada 6 meses, agora os álbuns de fotos foram agregados dentro do blog: ali em cima, no menu superior, você pode acessar o álbum utilizando a aba apropriada. Contudo, agora os usuários devem se registrar gratuitamente no blog para ganhar acesso as galerias de fotos. Não há motivos para desespero: no sistema de blogs WordPress , isso é a coisa mais simples do mundo: siga o link de registro ali na barra lateral e em poucos cliques você vai receber uma senha no seu e-mail, com a qual você poderá desfrutar da seção de fotos do blog.
Penso também em fazer uma galeria para minhas próprias fotos. Vamos ver.
Além dessa mudança estrutural, também vou tentar variar um poucos mais os temas dos textos: além de fazer as resenhas de cinema, música e vídeo de sempre no fim de semana, vou procurar publicar algo variado, que chamo de “amenidades” durante o meio da semana. Espero que eu tenha tempo suficiente para suprir esse meu desejo de escrever sobre outras coisas - até já tenho alguns textos feitos mais vou publicar apenas no meio da semana que vem.
Outra coisa a ser notada é a adição de alguns links externos ali na lateral esquerda do blog: se trata das minha contribuição nessa interminável ladainha do “social” na web 2.0. Meu Lastfm, DeviantART, Facebook e MySpace estão ali, se alguém quiser mesmo espiar tudo aquilo que eu ouço, aquilo que eu fotografo e meu mascaramento social na internet.
Gostaram? Odiaram? Falem logo! Se quiserem apenas espiar o que os outros estão dizendo aproveitem a nova funcionalidade do blog, que permite que você leia os comentários feitos nos textos sem precisar sair da página principal: é só clicar em “veja aqui mesmo o que foi dito”.
Espero que tudo de certo com o novo tema - seria muito chato voltar ao antigo por conta de problemas…Claro, lembrem que essa é uma versão beta do novo layout - qualquer coisa é só dar um grito!

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BlogDay 2007.

1 de September de 2007

Blogday 2007BlogDay, o dia em que blogueiros do mundo inteiro dedicariam um post para indicar aos seus leitores blogs interessantes que curtem, foi ontem, mas concedi-me o direito de fazer esse texto com um dia de atraso - até porque a dinâmica do seteventos.org é um pouco diferente da maior parte dos blogs, com atualizações mais semanais do que diárias. Eu sei que não participei das outras edições do evento - mas antes tarde do que nunca. Então seguem aí minhas dicas, todas imperdíveis:

Pelvini- o Pelvini é um blog que vai além dos textos sobre experiências pessoais, pois o autor se propõe um desafio muito saboroso: os leitores apresentam um tema e o autor compõe um texto, de grande qualidade literária, a partir do tema proposto. O resultado são crônicas, contos e poemas breves mas deliciosos.
Cute Overload - se existe um blog no mundo onde a palavras “fofo” é a definição mais exata é este. Visitadíssimo e um dos blogs americanos mais famosos, O Cute Overload expõe toneladas - mesmo - de fotos enviadas para o seu autor em que os protagonistas são bichinhos: dos clássicos cães e gatos aos mais exóticos, como pererecas e gambás, seja em momentos caseiros como em peripécias mais épicas.
Single White Male - o blog do B., como prefere ser chamado o autor, escreve textos no estilo “drops” sobre tudo o que lhe possa interessar no momento, além de oferecer aos leitores reflexões genuínas e sinceras sobre suas experiências pessoais sem ser muito explícito - o que é o seu diferencial.
Cliptip - como diz o nome, este é um blog com dicas sobre videoclipes interessantes, geralmente sobre lançamentos bem recentes.
Daiblog - este é um bom blog apenas sobre cinema, cuidadosamente atualizado com grande frequência para tecer ótimos comentários sobre os mais recentes lançamentos.

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“Sonhos de metrópole” ou “Todo mundo acha essa ilha a tal”.

20 de January de 2007

Sonhos de Metrópole ou Todo mundo acha essa ilha a tal“Ah, Florianópolis é um paraíso!” muitos diriam. “Tenho inveja de você, por morar aí”, todo mundo que não está aqui me diz. E o que eu, que moro nesse lugar, tenho a dizer, afinal de contas?
Realmente, a ilha é linda, cheia de praias fantásticas que eu quase não uso, repleta de homens e mulheres lindas, todos vindos de outros lugares do Brasil - e alguns de outros lugares do mundo -, consideravelmente mais segura do que as cidades que são oficialmente, por assim dizer, regiões metropolitanas.
Pronto, acabou.
No resto Florianópolis sai perdendo para todo mundo. Para mim, ao menos, ela sai perdendo em muito do que me interessa.
Vamos ao cultural primeiro.
Cinemas. Nossa, isso é uma lástima. Temos mais dois shoppings abrindo - e um deles abriu em novembro passado, anunciando que as 6 salas de cinema só estariam funcionando em março deste ano…tem coisa mais mané!?! - e um antigo tendo suas salas ampliadas. Contudo, nada disso me traz a esperança de que a oferta de filmes por aqui vai melhorar. Imagino que teremos uma variedade maior de lançamentos chegando, mas nada que fuja do padrão que já temos por aqui: produções pertencentes ao circuito comercial americano. Os dois únicos cinemas que tem a proposta de exibir filmes fora deste circuito - o do CIC, fundado há muito tempo e o Cine York, com algo em torno de 5 anos - tem seus donos aliados em uma prática que lesa de maneira degradante o público já há algum tempo: nos dias de meia entrada são exibidos filmes do circuito comercial padrão - muitos deles já exibidos nas salas dos shoppings -, restando ao público ver os filmes europeus, alternativos e de arte, que são a verdadeira razão de ser destas duas salas e que justamente são os que tem maior público nestas salas, apenas nos dias em que não há possiblidade de alguém pagar meia entrada, excetuando-se os estudantes. Isso é uma tremenda filha da putagem porque, ninguém me engana: ambas as salas recebem sim incentivos do governo, incentivos estes pagos do bolso do contribuinte. Como então eles podem se achar no direito de retirar os filmes do circuito alternativo/independente dos dias de meia-entrada, obrigando o público massivo daquelas salas a pagar a inteira para assistí-los? Isso tem nome: picaretagem.
E os festivais? Ai meu pai. Eu tive sorte de ver shows do Placebo e The Cardigans sem “sair de casa” - tenho que agradecer aos festivais Claro que é Rock e Campari Rock. Tirando isso, nada mais que realmente interesse passa por aqui. É uma tristeza ver tantas bandas e músicos interessantes fazendo shows nas grandes capitais, e nós por aqui ficamos na mão. Vocês podem até estar pensando que uma viajem resolve esse problema. Ok, resolve, mas eu estou falando sobre os pontos negativos da capital catarinense, lembram? E isso, sem dúvidas, pode ser configurado como um. Se falarmos em festivais de cinema a coisa é igualmente dramática.
E as exposições de arte, apresentações de teatro, concertos de música erudita que são realmente imperdíveis? Isabelle Huppert já esteve com um monólogo de Sarah Kane no sudeste brasileiro, assim como Peter Greenaway com sua mais famosa instalação/exposição, a Filarmônica de Berlim, as obras de Rodin, Picasso, Salvador Dalí, entre inúmeros outros. Já sofri por todos eles, mas ao saber da peça de Isabelle Huppert me senti o mais infeliz dos seres humanos tropicais.
Saindo da questão cultural também há um certo desespero. Males do exôdo de pessoas para cá causada pela burrice da mania de publicidade da prefeitura da cidade - e de muitos de seus habitantes também.
Falemos de segurança - ela já foi melhor! É bem aterrorizante ver o número de assassinatos, rixas entre traficantes, assaltos, roubos e até estupros aumentando sua incidência de forma gradual. Vocês podem até achar chato eu falar isso, mas eu sou obrigado a me revoltar contra a enorme migração de pessoas para a minha cidade. Não fosse todo mundo vir ou simplesmente anunciar querer vir para cá, algumas delas com imenso poder aquisitivo, essa corja de animais - estou falando dos criminosos - não iria ter a idéia de se instalar por aqui - que me perdoem os animais, eles não merecem comparação com essa gente degradante.
E quanto ao mercado imobiliário? Eu tive sorte de comprar, há menos de cinco anos, o meu apartamento de dois quartos, praticamente na cara do centro da cidade, por menos do que R$ 50.000. Hoje eu não pagaria por ele menos do que R$ 100.000. Desde o início deste novo século o preço dos imóveis quase triplicou, com um outro agravante: todos os imóveis atualmente planejados pelas construtoras são de alto padrão, com suítes a perder de vista, entre outros luxos. Há muito pouca coisa nova abaixo deste esquema sendo construída e, portanto, não há opções de compra - além do imóvel usado super valorizado - para quem não é um juiz aposentado cheio da grana.
Agora, por favor, parem de me dizer que é maravilhoso morar aqui. Acho que já ficou bem claro que não é bem assim. Eu não tenho mais paciência de ouvir isso só porque aqui tem praias e gente bonita. Até esses “pontos positivos” são conversa fiada: o mar está ficando poluído por conta dos balneários, o sol envelhece e dá câncer de pele, ir na praia todo dia enche o saco e, com algumas honrosas excessões, gente bonita é ao menos uma dessas coisas ou todas elas ao mesmo tempo: burra, metida, esnobe, fútil, extremamente brega e egocêntrica - já viram aquelas inúmeras comunidades de gente que se acha a tal no orkut por ser gostosa e linda? Tem algo mais desprezível do que aquilo?
Que isso sirva de aviso, heim! ;)

P.S.: E olhem, que engraçado: poucos dias antes, um outro blogueiro aqui de Floripa abordou o mesmo assunto com um texto excelente!
Vocês considerariam isso coincidência ou mais um sinal de que essa não é a ilha da fantasia?
Leiam o texto dele clicando no link abaixo:
http://web.marlonguerios.com/2007/florianopolis-paraiso/

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