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“Uma Questão de Imagem”, de Agnès Jaoui.

15 de September de 2007

Comme Une ImageÉtienne é um famoso e veterano escritor francês cuja filha, Lolita, sofre com o desapego do seu pai, com seus próprios complexos de aparência e com sua insegurança. Sua professora de canto, que inicialmente não simpatiza muito com a garota e com sua performance, descobre quem é o pai desta e, sendo grande fã de Etienne e esposa de um escritor iniciante que tenta publicar seu primeiro livro, resolve tentar se aproximar da garota.
Agnès Jaoui, depois do sucesso obtido pelo seu filme anterior, decidiu que o protagonista de seu mais recente longa-metragem teria natureza inversa daquele que tanto conquistou a crítica: de um homem que passa por um processo de mudança e aprimoramento de seu comportamento e gosto rudes, o co-roteirista Jean-Pierre Bacri passa a interpretar um homem que não consegue - e nem tenta - modificar o modo displicente com que trata as pessoas, sempre devidamente menosprezadas pela sua personalidade narcisista e egocêntrica. É a partir deste personagem, e não exatamente ao seu redor, que os eventos tomam lugar e as relações pessoais no filme se desenvolvem: primeiro com os personagens períféricos, como o assistente do escritor, ignorado por este em tudo que não compete suas funções, e a esposa de Étienne, que tem sua educação para com a filha invalidada pelo marido, depois com os protagonistas do longa, como a filha que tenta ganhar um pouco de atenção do pai e, a professora de canto, já um tanto entediada com sua profissão e esperançosa de que seu marido um dia deslanche na que ele escolheu e este último, sem muita esperança de que realmente consiga publicar algo um dia. O interesse da diretora e co-roteirista, visível desde seu filme anterior, é descortinar as coisas que movem e impulsionam as relações humanas e, no caso específico deste filme, nas intenções que se escondem por trás delas: primeiro, a de pessoas que iniciam suas relações com homens como Étienne para se benefeciar de seu prestígio e influência - muitas vezes usando outra pessoa para alcançá-lo, algo muito bem ilustrado no filme pela filha complexada devido seu excesso de peso e seus insucessos artísticos e carente de atenção do pai e da alheia -, segundo a do próprio Étienne que, de forma tão infantil, carece da presença e atenção de todas essas pessoas para reafirmar sua importância para si mesmo - eu não saberia dizer qual dos dois lados seria o mais mesquinho, mas o que eu nem ninguém precisa refletir muito para saber é o quanto isto se relaciona de modo intrínseco com o mundo em que vivemos hoje, repleto de pessoas como Étienne e ainda mais cheio de pessoas que se sujeitam a alimentar a sua egofilia. Pode-se pensar que, no meio desta fogueira de vaidades e expectativas, pessoas como Lolita são as únicas vítimas, mas Agnès Jaoui também se ocupa de analisar seu comportamento e mostrar suas falhas: é através de sua propensão em achar que todos se aproximam dela só por conta do pai famoso e rico que a diretora demonstra a tendência que pessoas inseguras e com baixa auto-estima tem em sempre achar que o interesse que os outros nutrem por elas nunca é genuíno, o que possibilita o risco de, na inércia constante da posição de vítima que elas tomam, acabem julgando como ilegítimas relações que não o são. Mas, nem tudo esta perdido: no encaminhamento do filme, felizmente, vemos que algumas pessoas podem começar a quebrar este círculo vicioso, percebendo o mal que elas fazem a si próprias e aos outros ao alimenta-lo - como a personagem da diretora, a professora de canto Sylvia. O problema é que isso, fora do plano da ficção, não costuma acontecer com muita frequência - eu diria que raramente acontece.
Em “Uma Questão de Imagem” a dupla Jaoui/Bacri aprimora o seu estilo muito além do exposto em “O Gosto dos Outros”, explorando de forma mais competente e realista o drama e compondo soluções um pouco mais elaboradas, como fica claro na sequência que fecha o longa-metragem. Está longe de ter a profundidade e originalidade dos melhores dramas - e mais antigos - de Woody Allen ou a visceralidade de um “Festa de Família”, mas é o sinal de que, com um pouco mais de ousadia o casal de franceses pode achar o caminho.

OBS: ainda não encontrei links para download do filme. Encontrando algum, os links estarão disponíveis aqui.

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“O Quarto do Filho”, de Nanni Moretti. [download: filme]

14 de July de 2007

LaGiovanni, psicólogo que tem consultório em sua casa, vive uma vida pacata com seus dois filhos, Andrea e Irene, e sua esposa, Paola. Certo dia, seu filho é acusado de, na companhia de um outro amigo, ter roubado um artefato do museu de sua escola. Giovanni quer acreditar na inocência do filho, mas sente que ele pode ter realmente feito o roubo. Apesar disso, Giovanni lida com tranquilidade com a situação, e fica a espera de que o filho lhe conte a verdade, por bem e por confiança. Contudo, uma tragédia impede que isso aconteça.
Nani Moretti trata, neste filme, do sofrimento de uma família pela perda de um dos seus membros. Apesar de não parecer, a primeira vista, este é um tema difiícil de ser explorado: dependendo da abordagem da diretor, da concepção do roteiro sobre o tema e do estilo adotado pelos atores, o resultado pode ser um filme que descamba para o sentimentalismo mais fácil e ordinário, a pieguice mais insuportável e cafona. Para nossa sorte, este não é um destes casos: Nani Moretti, que é responsável não apenas pela direção, mas compôs o roteiro com a ajuda de Linda Ferri e Heidrun Schleef e ainda encarna o protagonista, consegue guiar o tema com delicadeza e cautela, explorando emoções genuínas e naturais nos seus personagens que nunca soam “over” - mesmo quando o sofrimento transborda nos personagens, em atitudes destemperadas mas inteiramente compreensíveis diante dos acontecimentos, ele sempre é crível e comedido, o que espelha diretamente a personalidade desta família tranquila, organizada, serena e cúmplice. Inteligente também é o olhar de Moretti sobre a dinâmica do comportamento das pessoas ao enfrentarem uma perda como esta: algumas pessoas podem se expressar melhor em confissões verbais de dor e agonia, outras só o conseguem fazer através de gestos gentis e sutis, outras ainda aliviam seu afobamento em momentos de rebelião e protesto - isso depende muito da natureza de cada pessoa e de seu estado, mas a comunicação e a exteriorização deste sofrimento, mostra ele, é o passo primeiro para lidar com isso.
O diretor italiano também consegue, sem a necessidade de extender a duração do filme, mostrar como as pessoas precisam, na impossibilidade de reestabelecer internamente o equilíbrio familiar, do contato de alguém externo à ela, que os lembre e os conforte na recordação de quem se foi, ajudando todos a selar este período dramático e a retomar suas vidas.
Contudo, o maior mérito do filme, a meu ver, é o modo perspicaz com que Moretti e seus colegas roteiristas desenham as consequências posteriores à um trauma familiar deste tipo: apesar de que, passado o período de luto e dor, muitas vezes, a vida segue adiante para os que ficaram, exatamente da maneira como era, em outras isso não é mais possível, e algo muda dali em diante - e, dentro desta família, agora com apenas três pessoas, esse é o modo do psícologo encarar a vida após a morte de alguém que tanto ama.
Como vocês poderão se dar o prazer de observar, “O Quarto do Filho” é um dos filmes mais tocantes e equilibrados ao lidar com o tema da morte dentro do seio familiar. Apesar dos depoimentos que tive sobre a qualidade do filme, não deixei de me surpreender com a beleza e o bom gosto com que o tema é tratado e com a condução confiante do cineasta. Provavelmente, este longa-metragem permanecerá insuperável como o momento mais brilhante de toda a carreira de Moretti, um filme que, com economia de recursos e tempo, consegue delinear com precisão a dificuldade humana em ter consciência plena de seu mais pesado fardo.
Baixe o filme utilizando os links a seguir e a senha para descompactar o arquivo.

OBS: links funcionais mas não testados.

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senha: www.cithiz.com

legendas disponíveis (português):
http://www.opensubtitles.org/pt/download/sub/56939
http://www.opensubtitles.org/pt/download/sub/49263

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“Um Filme Falado”, de Manoel de Oliveira.

9 de December de 2006

Um Filme FaladoJovem professora universitária de história viaja de navio com a filha, saindo de Portugal, com o objetivo de alcançar a Índia, onde seu marido, piloto de aviação, a aguarda para que juntos aproveitem suas férias. No caminho ela apresenta para a filha diversas cidades e algumas de suas estórias, ao mesmo tempo que em cada parada que o navio faz ganhamos um novo personagem daquele país em questão.
O diretor português Manoel de Oliveira concebe uma obra de elementos interessantes em “Um Filme Falado”: ao mesmo tempo que eles fazem a qualidade do filme também integram igualmente os seus defeitos - ou seja, os pontos positivos dos aspectos do longa também são os negativos, sob um outro ponto de vista. Usando como mote a viagem da professora universitária de história e sua filha cuiriosa, o diretor faz paradas em diversas cidades de diferentes países, ao longo do trajeto do navio, revelando fatos históricos curiosos, mitos e lendas de alguns de seus pontos turísticos. É delicioso acompanhar esta viagem, admirando belíssimos cenários do Mediterrâneo e Oriente Médio, constatando algumas de suas curiosidades, mas numa certa altura do longa-metragem isso fica demasiadamente cansativo, pelo seu caráter excessivamente didático que, por sinal, ocupa mais da metade do longa-metragem. Os dialógos entre os demais figuras do filme, de diferentes nacionalidades, é curiosamente engendrado por cada personagem em sua língua materna - fato reconhecido pelos próprios -, o que lhe concede uma atmosfera cosmopolita e erudita. Porém, o conteúdo das conversas, apesar de relevante, acaba logo caindo num certo pedantismo, uma intelectualização e filosofar que pesam demais e tornam as cenas arrastadíssimas, desnecessariamente lentas. A sequência final, baseada em uma ótima idéia, é realista, visto que surge de maneira inesperada, sem qualquer pista sobre a possibilidade disto poder ocorrer. No entanto, também fica algo díspare e perdida no filme, sendo finalizada de forma muito apressada, quase desinteressada - Manoel de Oliveira poderia ter planejado este prólogo de forma mais cuidadosa, planejada e dedicada, sem prejuízo de perder o caráter realista do fato e sem colocar em risco a atmosfera autoral e artística do seu longa-metragem.
Ao cabo da expectação, conferimos que Manoel de Oliveira produziu um fillme relevante, mas que acabou prejudicado pelos excessos do cineasta, que tornou assim seu filme bastante cansativo, mesmo para espectadores treinados, tolerantes e pacientes. É um filme a ser visto, como a maior parte dos longas que vem da Europa, mas que não apresenta muitas razões que justifiquem de ser lembrado entre os seus filmes preferidos.

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“Capitão Sky e o Mundo do Amanhã”, de Kerry Conran.

25 de November de 2006

Sky Captain And The World Of TomorrowJovem jornalista presencia, junto com toda a população atônita de Nova Iorque, uma misteriosa invasão de robôs gigantes. Ela decide, junto com bravo e famoso aviador (que por sinal é um ex-romance seu), investigar as razões e objetivos obscuros para tentar evitar que mais maquinarias invencíveis façam mais estragos no mundo.
É evidente que o trabalho da direção de arte neste filme é a sua maior qualidade - a mistura de elementos modernos com outros retrô deixa o longa-metragem repleto de belíssima e estranha nostalgia. No entanto, o elemento que a produção do filme achou complementar ao trabalho da direção da arte, consitui-se em um recurso extremamente irritante: a fotografia reluzente, aquela muito utilizada em produções de época, deixa a imagem com um aspecto tão chapado que torna a expectação incômoda durante todo o decorrer do longa-metragem - ao menos no meu caso, foi necessário um esforço enorme para tolerar esse “halo” na luz do filme. Além desse aspecto, há também o fato de que o filme foi inteiramente feito utilizando a técnica do Chroma Key - aquela em que a ação em primeiro plano é filmada sobre um fundo de cor única para que seja inserido digitalmente um segundo plano ao fundo. Isto não seria um problema muito grande não fosse a intenção confessa da equipe de produção de utilizar a técnica intencionalmente afastando o visual final de qualquer aspecto realista - o que acabou infelizmente se tornando um novo paradigma no método de filmagem, visto que filmes como “Sin City” e o ainda não lançado “300 de Esparta” o fazem inspirados neste. O resultado, da forma como foi utilizado o recurso, irrita tanto quanto a fotografia aureolada do longa-metragem. Claro que, mesmo com os aspectos técnicos trabalhando contra o filme, ainda poderíamos ter um longa-metragem interessante se os outros pontos a ser considerados pesassem à seu favor. No entanto, eles não se configuram como algo positivo. O argumento cheira à fábula requentada - chegando mesmo a citar “O Mágico de Oz” - com a desculpa de “filme-homenagem” e de reinvenção de um gênero. Os personagens são extremamente caricatos, e as situações armadas no roteiro, consequentemente, tão batidas quanto os seus agentes. Por sua vez, o elenco é díspare e desigual, já que os onipresentes Jude Law e Angelina Jolie já saturaram o público com a sua imagem dentrou (e) ou fora das telas e Gwyneth Paltrow, sozinha, não tem muito como salvar todo um filme.
Ao fim, este filme não tem qualquer coisa que lhe configure o status de produção marcante ou relevante, mesmo dentro do cinema do circuito comercial. A inspirada direção de arte não tem força para conferir, por si só, aspecto relevante para que o filme seja uma produção a ser lembrada. A bem da verdade, tem que se admitir que este filme tornou-se realmente muito influente, porém foram os seus aspectos técnicos negativos que chamaram a atenção de cineastas, para nosso azar. Resta apenas esperar que um bom número de futuras produções envoltas nesta “atmosfera técnica” tornem-se fracassos retumbantes - é só assim, quando pesa no bolso, que Hollywood para de nos infernizar com alguns de seus “achados” mais irritantes.

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“Caché”, de Michael Haneke.

18 de November de 2006

cachéCasal de classe média-alta recebe, certa manhã, uma fita de vídeo constando filmagem de longa sequência da entrada de sua residência, acompanhada ainda de um desenho obscuro de traços infantis. Não demora muito e outras fitas e desenhos sucedem-se, sendo que uma destas revela relação com as origens do patriarca da família. O apresentador de TV e sua esposa, ambos envolvidos com o mundo literário, sentem-se mais e mais ameaçados e intrigados com a origem das fitas e com as intenções de quem as produziu.
Juliette Binoche e Daniel Auteuil são as escolhas corretas para este que é o filme mais recente do alemão Michael Haneke. Os dois são atores excepcionais, capazes de desempenhar papéis de todas as gamas possíveis. Aqui, eles interpretam um casal culto de classe média alta, mas que tem, ao mesmo tempo, uma natureza ordinária - não são muitos os atores que conseguiriam unir estas duas diferente nuances no mesmo personagem. Saindo do mérito interpretativo, Haneke merece todos os elogios pois, como no seu filme anterior, arquiteta uma estória complexa que se esconde sob a abordagem clássica do cinema europeu. O que a primeira vista parece um argumento que explora a insegurança da vida urbana, mostra-se, em uma camada mais profunda, uma discussão bastante cara ao cineasta: a situação dos imigrantes na França deste início de século. Georges Laurent, o personagem de Auteuil, age baseado em motivações justas, procurando proteger sua família a todo custo, mas na tentativa de encontrar o mentor das fitas misterioras, Laurent define para si um culpado e, como no passado, humilha e recrimina alguém que já sofre e encontra-se em uma situação infeliz, sem nunca ter prova definitiva de que suas suspeitas procedem e suas ações justificam-se. Alguns poderiam afirmar que o personagem age deste modo porque encontra-se tão confuso quanto o expectador, já que Haneke não apresenta no filme respostas claras à estas indagações, porém não são as respostas às dúvidas surgidas a razão de ser de “Caché”, mas sim esta analogia, muito bem posta, entre as atitudes da França e dos franceses com relação à estrangeiros, particularmente aqueles originários das ex-colônias do país. “Caché” é excepcional em sua abordagem sociológica, mas também figura como um longa de expectação consideravelmente incômoda, devido à sua temática realista e seus conflitos eminentes e constantes. A decisão de não adotar trilha sonora durante todo o filme amplia o desconforto do expectador, potencializa o realismo da trama e aproxima-o ainda mais dos acontecimentos da estória. Além dessa secura na abordagem do longa-metragem, a maneira como Haneke exibe as filmagens dos cassetes, tomando a tela com as imagens destes, põe o expectador na mesma situação dos personagens que tem sua privacidade e segurança repentinamente ameaçadas - uma idéia que, combinada com a natureza do roteiro e de seus argumentos, explora magistralmente a relação entre filme e expectador, tornando esta relação insuportavelmente tensa, mantida em um desagradável suspense contínuo.
Haneke é, a cada filme, um dos cineastas europeus com a proposta mais consistente, aliada à uma técnica apurada e um gosto pela polêmica - não à de natureza gratuita ou leviana, mas a polêmica necessária, aquela que questiona e induz à reflexão. Além de muita coisa mais, cinema também é isso, uma maneira de despertar o pensamento humano sobre a realidade e a consequência de suas ações. Apesar de, até este momento, Haneke ter se mostrado um cineasta coerente, tenho que revelar que até mesmo ele rendeu-se aos encantos de Hollywood: neste momento, o diretor está finalizando uma refilmagem, com elenco americano, de um dos seus primeiros e mais contundentes longas, chamado “Funny Games”. Vamos torcer para que esse projeto seja apenas uma curiosidade singular e pessoal do diretor, e que ele retorne logo para continuar a produzir no seu continente natal, visto que, no cinema americano, dificilmente alguém consegue produzir algo tão relevante e complexo quanto seus dois últimos filmes.

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