Textos etiquetados como ‘espanha’

“Má Educação”, de Pedro Almodóvar.

29 de Julho de 2006

La Mala EducaciónDois jovens que tiveram breve contato em escola católica, o cineasta Enrique e o aspirante a ator Ignácio, se reencontram na vida adulta e relembram os abusos sofridos por Ignácio por um dos padres. Ignácio, no reencontro, apresenta um roteiro de cinema escrito por ele e inspirado na infância que os dois compartilharam.
Pedro Almodóvar não está entre meus cineastas favoritos - mesmo. De suas obras, até hoje, apenas “Ata-me” e “Mulheres à beira de um ataque de nervos” tem, para mim, algum interesse. “Má educação” não me causou qualquer curiosidade logo que descobri tratar-se de mais um filme totalmente calcado na temática homossexual, além da transsexual, coisa que me lembra muito “A Lei do desejo”, filme do diretor que pago para não assistir novamente nunca mais. No entanto, depois de muita relutância, resolvi que solucionaria a questão de uma vez por todas.
E o meu sexto sentido cultural não me enganou: “Má educação”, apesar de não ser horroroso como “A lei do desejo”, é bem dispensável. Trata-se de mais um dos filmes do diretor espanhol que tentam mesclar o exotismo dos personagens com uma trama policial. A mistura até que funciona, em alguns poucos momentos, mas há um problema, nada tolerável, que interfere de maneira efetiva neste ponto. Para que você acompanhe com a devida atenção e se envolva com o suspense construído por um filme policial, é necessário que o longa-metragem consiga obter a empatia do público com relação aos seus personagens, e isso não ocorre em “Má educação”. A razão é muito simples: como simpatizar com um travesti porra-louca, ganancioso e trambiqueiro, que chega a pilhar a própria mãe, seu irmão não menos ganancioso e mercenário, tipinho capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos, e um ex-padre pedófilo, de personalidade lamentável? O único personagem que consegue obter alguma simpatia é mesmo o do cineasta Enrique, mas como ele, mesmo sabendo que estava sendo enganado, acaba se acomodando com a situação em troca dos favores sexuais de Angel/Juan, a empatia desenvolvida não chega ao nível necessário. Desta forma, o filme falha ao não criar no público o envolvimento necessário com os personagens para que acompanhem com interesse os acontecimentos da trama policial. E, se a faceta policial do filme é deficiente, em consequência de os personagens também o serem, já que não despertam empatia, o que resta em “Má educação” para que seja configurado como um bom filme? Nossa, nada. O que me leva a refletir, desde muito tempo, porque Almodóvar é visto como um cineasta genial: seria por expor personagens exóticos - travestis, homossexuais, mulheres hiperbólicas? Seria por expor um suposto retrato da latinidade? Seria pelas suas tramas, por vezes estapafúrdias? Não entendo, de fato. Nem mesmo os seus filmes mais celebrados ultimamente, como “Fale com ela”, conseguiram me tocar adequadamente - por sinal, estou devendo um texto sobre este longa. Ao cabo de tudo, “Má educação” sofre do mesmo mal de “Carne trêmula”: os dois simplesmente não arrebatam, não me tocam, não me interessam. Quando os acontecimentos da trama policial são revelados, o que deveria acabar como uma fulgurante catarse acaba simplesmente levando o expectador mais exigente a se perguntar, insensível ao destino infeliz de um personagem qualquer: “Tá, e daí?”. Definitivamente, a Europa tem diretores mais sensíveis do que este, se é sensibilidade o que os fãs de Almodóvar julgam ser sua genialidade.

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“O Operário”, de Brad Anderson.

5 de Fevereiro de 2006

El MaquinistaChristian Bale interpreta Trevor, um operador de máquinas de uma cidade industrial perdida em um lugar qualquer do mundo. Trevor vive uma rotina tão insípida como a de milhões de outras pessoas sem qualquer ambição como ele, não fosse por alguns detalhes que chamam a atenção em sua aparência física. Trevor não dorme há cerca de um ano e, em consequência disso, o operário apresenta um aspecto físico frágil, de uma magreza quase cadavérica. E enquanto sua aparência piora a cada dia seu cotidiano de eventos até então imutáveis começa a sofrer perturbações inexplicáveis.
Christian Bale já provou que é um bom ator, mas consegue mostrar ainda, com este papel, que pertence ao grupo de atores que apoia a descaracterização física como instrumento integrado à caracterização psicológica no trabalho de interpretação (a mais recente à entrar no time foi Charlize Theron em “Monster”). É certo que em alguns filmes é algo
Este é mais um filme da recente leva que se utiliza de um roteiro repleto de desvios e contornos para confundir o espectador e não permitir que qualquer de suas suposições se sustentem por mais do que alguns momentos, até que tudo seja esclarecido no final. “Amnésia”, “Irreversível”, “O sexto sentido”, “Os outros”, “21 gramas” e muitos outros ainda se utilizam mais ou menos deste artifício, alguns contando ainda com o adicional da narrativa fragmentada ou reversa. Todos aqui citados - incluindo o filme de Brad Anderson - resultam em filmes de boa qualidade, mas este recurso de tentar ludibriar a percepção do espectador está se tornando tão banal quando o uso excessivo de efeitos digitais no cinema americano. O fato mais negativo em decorrência da ostensiva utilização disso é que o espectador já está indo ao cinema ou sentando no sofá com essa expectativa, e mesmo antes do filme começar sua mente já se encontra preparada para o trabalho de desconstruir a confusão propositalmente arquitetada.

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“Intacto”, de Juan Carlos Fresnadillo.

22 de Outubro de 2005

É fato que o cinema feito fora do eixo norte-americano está já em um patamar bastante evoluído. Não vou cometer o erro de dizer aqui que “está cada vez melhor”. O cinema não-americano já é excelente, apenas carece de uma maior quantidade de lançamentos, o que, talvez, seja sua maior qualidade: menos filmes, menores as chances de nos depararmos com muito lixo, como acontece com o cinema produzido pelos Estado Unidos. E o cinema mundial está tão bom que consegue se apoderar da qualidade técnica típica dos filems americanos e superá-los no conteúdo: os argumentos e roteiros são muito mais originais do que os produzidos pelos americanos.
Um exemplo é o filme Intacto, de Juan Carlos Fresnadillo, que tem como protagonista o ultra-sexy (em minha singela opinião) ator argentino Leonardo Sbaraglia (quer ver como ele pode ser um poço de sensualidade? Confira no excelente filme argentino Plata Quemada).
No filme, Federico, ex-aliado de um um velho magnata de um cassino (este último interpretado por Max Von Sydow) encontra um Tomás (Sbaraglia) um ladrão de bancos que é o único sobrevivente de um desastre aéreo cujas proporções jamais pouparia uma viva alma sequer. Devido ao fato, Federico supõe que Tomás seja alguém que possua um dom que poucos possuem: sorte. Treinado para controlar esta “capacidade”, Federico ajuda Tomás na fuga do hospital onde se encontrava sob vigilância e o introduz num mundo onde se joga com a própria sorte e a de pessoas alheias, que são chamadas pelos que possuem o dom de “cativos”. Mas Tomás e Federico não terão tranquilidade em suas empreitadas, já que Sara, uma agente da polícia, está os perseguindo.
As atuações, roteiro (muito bem amarrado), e todo o aspecto técnico do filme são impecáveis. O filme faz bom uso até mesmo dos eventuais clichés de uma trama tipicamente policial. Um clima soturno e melancólico inteligentemente sutil atravessa todo o filme, o que ajuda a causar uma certa claustrofobia, apesar de o filme estar ambientado, em grande parte, em ambientes externos e bastante abertos. Confira este filme espanhol que é mais uma excelente opção para curtir a qualquer momento, no lugar daquele arrasa-quarteirão super produzido que nada de novo traz.

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