Textos etiquetados como ‘documentarios’

“Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen.

11 de Agosto de 2007

Undergangens ArkitekturDocumentário de 1989 que apresenta como valores, idéias, conceitos e teorias foram encadeados e tomados de forma cada vez mais radical até resultar no movimento Nazista e no sonho de dominação, purificação e embelezamento do mundo pelo Império Alemão.
Peter Cohen expôs em 1989, no seu documentário “Arquitetura da Destruição”, o resultado de uma pesquisa que tomou 7 anos de sua vida: diferentemente da abordagem dada ao tema até então, que se resumia em buscar o impacto e estupefação fáceis nas platéias ao estampar a tela com cenas de extermínio e desgraça promovidas pelo regime Nazista, Cohen estava mais interessado em promover o seu alerta de forma mais inteligente, sutil e profunda, revelando todo o arcabouço de idéias e suposições sobre o mundo, o seu estado de então e o seu futuro, bem como os artifícios utilizados pelo governo alemão para propagar sua idéias e angariar todo o apoio de sua população para torná-las realidade. A epifania de Hitler diante de “Rienzi” de Wagner, sua obssessão com a estética perfeita das artes greco-romanas, sua admiração pelo regime de governo do Império Romano, a sua predileção pela arquitetura faraônica são todos expostos como fontes de inspiração para a formulação e desenvolvimento do regime e ideais nazistas, bem como serviram de instrumentos para sua sustentação e contínua manutenção - sim, porque a arte, a propaganda e a ciência foram utilizadas, cada uma em seus mecanismos mais dinâmicos - exposições em galerias, exibições de filmes, comícios e reuniões - como veículos de propagação dos ideais nazistas, afim de, ao mesmo tempo, legitimar o pensamento Nazista e difamar tudo o que não se enquadrava em seus ideais utópicos. Esse enraizamento do Nazismo com certos preceitos estéticos-artísticos não foi por um mero acaso: segundo o documentário, muitos dos maiores artífices do movimento tinham inclinações artísticas, ou mesmo eram artistas frustrados. O próprio Hitler, que fora recusado na Academia de Viena como pintor, dava vazão à suas ilusões artísticas ao desenhar, planejar e arquitetar - ou ao menos delinear as bases - de grande parte da estética do movimento, de seus eventos colossais, de sua arquitetura megalômana e de sua propaganda.
Assim, o longa-metragem documental de Peter Cohen não causa impacto pelo sensacionalismo mais preguiçoso, pela exploração óbvia e previsível de um episódio histórico envergonhante, mas sim por esclarecer sua gênese de forma profunda, jogando luz sobre aspectos obscuros e muito pouco discutidos, divulgados e escrutinados. É através de sua investigação detalhada, tanto sobre ilusões, conceitos e métodos de Hitler e seus homens de confiança quanto do próprio movimento Nazista e o seu “corpo do povo” - o ariano, claro - que Peter Cohen consegue nos alertar para o perigo que representam conceitos radicais do que é esteticamente aceitável, ideais de beleza levados ao extremo, subversão de discursos integrados em movimentos artísticos e a abordagem pinçada de afirmações científicas. Hitler era realmente um homem inteligente, mas a sua inteligência era, talvez, uma das mais burras que pode ter existido: uma inteligência dissociada de qualquer noção de humanidade e de entendimento das diferenças em detrimento do sonho de evolução para um mundo estático, preso em moldes idealizados de beleza e assepsia - uma idéia tão doentia que a contradição mais básica, a de que a evolução sem a existência da diferença não é evolução, mas meramente um engessamento do desenvolvimento humano, foi completamente ignorada.

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“Uma Verdade Inconveniente”, de Davis Guggenheim. [download: filme]

3 de Fevereiro de 2007

An Inconvenient TruthO filme reúne dados resultantes de pesquisas científicas, em uma apresentação feita pelo ex-vice-presidente americano Al Gore, procurando chamar a atenção sobre o quanto o aquecimento global está ocorrendo de forma cada vez mais acelerada e sobre como as suas consequências irreversíveis tomarão lugar muito antes do que imaginamos.
O documentário de Davis Guggenheim alterna a palestra de Al Gore com imagens e cenas de suas viagens por vários países onde a apresentou, estórias e acontecimentos familiares e com fatos de sua trajetória como senador, vice-presidente americano e candidato à presidência. Al Gore apresenta com muita clareza, com pouquíssimos momentos mais técnicos, a conclusão do seu acompanhamento dos estudos e pesquisas sobre as origens e efeitos do aquecimento global sobre o clima, geografia e futuro do planeta, pontuando também o seu efeito altamente nocivo na economia, no aumento da miséria, no surgimento de novas epidemias - bem como na piora das atuais - e no agravamento da extinção das espécies animais e vegetais. A idéia de investir em um formato mais híbrido, que não se concentra apenas na palestra, procurando humanizar e tornar confiável o seu protagonista, é visivelmente inspirada no marketing político - o que não deveria surpreender ninguém, visto ser Al Gore ser um -, mas ajuda também a tornar o documentário menos aborrecidamente técnico e estático, suavizando o seu andamento e conferindo-lhe temporalidade e dinâmica.
Apesar de muito elogiado, o filme também foi alvo de críticas, levantadas particularmente por políticos e jornalistas. A minoria destas críticas pergunta sobre a necessidade de, em alguns momentos do filme, expor a parcialidade da visão de Gore sobre acontecimentos e figuras do mundo da política. Há de se questionar o direito de Gore em abrir espaço para isso em um documentário que se propõe a esclarecer (ou lembrar) o público sobre uma questão que ultrapassa as fronteiras da crença ou ideologia política - isso é compreensível e razoavelmente sensato. Porém, mesmo podendo questionar a validade desse direito, há de se admitir também que Al Gore foi sincero o bastante para afirmar, em vários momentos do filme, que isso também é uma questão política - o que é mais compreensível ainda.
Uma outra parte das críticas questiona a validade de um documentário cujo conteúdo apresentado foi formulado sobre as conclusões não de um cientista, um estudioso no assunto, mas de um leigo, que tão somente reuniu pesquisas e informações científicas. Claro que Al Gore não tem formação no assunto, mas a luta pela consciência ecológica e ambiental não é perpetrada tão somente pelos estudiosos, mas também por porta-vozes. Grande parte do ativismo consciente e responsável no mundo, inclusive do ambiental, é feito por pessoas que não são estudiosos atestados. Desmerecer o esforço e trabalho destas pessoas só porque o conteúdo de seu ativismo não é fruto direto de sua própria reflexão é esnobismo leviano. A história do mundo não é feita só pelos que produzem o conhecimento, mas também pelos que lutam para que todos reflitam e façam uso dele.
Mas, o que mais impressiona é que a maior parte das críticas formuladas digam ser puro exagero - quando não sensacionalismo - declarar que o aquecimento global seja fruto da ação humana - particularmente da ação humana norte-americana - questionando a veracidade dessa afirmação. Dentre todas as três críticas feitas ao longa-metragem, essa é a única que realmente não dá para engolir, muito menos tolerar pacificamente. Mesmo em pleno século XXI, com o noticiamento maciço de toda uma miríade de catástrofes climáticas e ambientais, escancaradamente causadas pela ação do homem - o que está mais do que claro para qualquer ser humano que não tenha algum nível de retardamento mental -, é impossível aceitar que alguém creia ser isso invenção ou devaneio científico. E eu não consigo decidir o que é mais desprezível: se é o fato de essas pessoas fazerem tais afirmações movidas pela ignorância ou se é por fazerem isso puramente por interesses escusos e extremismo político.
“Uma Verdade Inconveniente” não chega a ser um um filme brilhante, mas está bem acima da média pelo modo claro, objetivo e inteligente que Al Gore combina as pesquisas mais recentes e dados nunca antes divulgados ao público geral, finalizando em um alerta muito bem embasado e verdadeiramente aterrorizante - e se o espectador ainda se dispor à uma pesquisa em fóruns, portais de cinema e blogs, o filme ainda tem o mérito de apontar a existência (e insistência) da mais estapafúrdia ignorância humana - aqui no Brasil, inclusive. Meu único pesar com relação à essa gente cretina é que provavelmente elas já terão sido devoradas pelos vermes antes de o planeta ter o prazer de ele mesmo dar o troco.
Baixe o longa-metragem utilizando uma das fontes a seguir.

fonte 1:
http://d01.megashares.com/?d01=a54a06a

fonte 2:
http://rapidshare.com/files/1994143/An.Inconvenient.Truth.DVDRip.XviD-DiAMOND.part1.rar
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legenda (português):
http://www.opensubtitles.org/pb/download/sub/3086248

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“Língua: Vidas Em Português”, de Victor Lopes.

14 de Abril de 2006

Língua: Vidas Em PortuguêsDocumentário que reune a opinião de artistas, e um pouco do cotidiano de gente comum, centrando-se em como a língua portuguesa e a colonização deste povo influi e integra a vivência destas pessoas.
O “ser” lusitano - ainda que apenas descendente ou por criação - é aqui investigado de maneira fascinante para qualquer falante desta língua: não há como não se emocionar ao se dar conta de que, apesar das evidentes e inevitáveis diferenças, há afinidades eletivas que nos unem todos, e nos quais podemos nos reconhecer mutuamente - o desprendimento, a tradicão da refeição do “café” à mesa, a fé desmedida na religião, o amor pela música. Quando se concentra em pessoas anônimas, o diretor Victor Lopes prefere não indagar sobre a língua e o lusitanismo, preferindo evitar uma filosofia popularesca e ocupando-se em montar um breve painel da personalidade delas e do cotidiano vivido por estas pessoas. Desta forma, Lopes atingiu seu objetivo mesmo sem tocar propriamente no assunto, utilizando-as como ilustração da discussão formada pelos protagonistas mais famosos do documentário. E é quando o assunto entra em pauta que os momentos de maior beleza surgem: Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães - da banda Madredeus - , o compositor Martinho da Vila, os escritores Mia Couto, José Saramago e João Ubaldo Ribeiro falam de maneira franca sobre esta alma coletiva que habita todos aqueles que pertençam de alguma maneira aos povos lusitanos. Tão intraduzível para todos os outros povos quanto a palavra “saudade”, somente os que tem a sorte de integrar uma das culturas mais ricas, belas e anfitriãs do mundo tem a capacidade de compreendar a totalidade do que está ali tão bem retratado. Documentário de apreciação obrigatória para todos àqueles que compreendem o quanto é maravilhoso ser um dos mais de 200 milhões de lusos pelo mundo.

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“Buena Vista Social Club”, de Win Wenders.

13 de Janeiro de 2006

Buena Vista Social ClubO compositor Ry Cooder, que vem costumeiramente trabalhando com o diretor alemão Win Wenders, declarou que sempre se sentiu atraído pela música cubana, aproximando-se dela nas visitas que fez ao país à trabalho. Algum tempo depois, seguindo a sugestão de sua gravadora, decidiu levar à frente o projeto de unir músicos cubanos e africanos para gravar um disco. No entanto, depois de tudo acertado, os músicos que vinham da África foram impedidos na Europa de embarcar para Cuba. Apesar de frustrado, Cooder resolveu resumir o projeto aos músicos cubanos. O disco Buena Vista Social Club, resultado das gravações coordenadas por Cooder, tornou-se um grande sucesso de crítica e público, levando os músicos à apresentações dentro e fora do seu país.
De forma sucinta, o processo de construção do disco Buena Vista Social Club é mostrado no documentário homônimo dirigido por Win Wenders. O diretor alemão foi convencido pelo amigo Cooder a retratar a experiência e transformá-la em um filme. A crítica de cinema rasgou-se em elogios infinitos à película. E o filme está longe de ser uma obra prima mas é, de fato, tocante. Wenders leva grande parte do filme seguindo uma mesma estrutura: faz uma rápida apresentação do artista no estúdio para, logo depois, mostrar um pouco do seu cotidiano e revelar como foi trajado o seu caminho até a música. Além disso, sessões de estúdio são mescladas com apresentações ao vivo dos músicos na Europa e Estados Unidos.
Cooder e Wenders conseguem no filme demonstrar que os esquecidos músicos cubanos tinham ainda, apesar da idade avançada, muita vitalidade para mostrar sua música suave e nostálgica. E o público brasileiro se sente particularmente identificado com suas composições, pois muito do que se vê ali pode ser identificado com o nosso samba-canção: a melodia, as letras, a impostação vocal, que era característica desse gênero da música brasileira, se assemelha muito àquilo que fizeram os cubanos. Não sou um grande conhecedor de música brasileira, mas poderia arriscar e dizer que nosso samba-canção guarda algum tipo de parentesco com a música latina, particularmente à cubana.
No entanto, algumas ressalvas ficam a partir da expectação do filme, e elas nãO estão relacionadas ao documentário em si. Durante boa parte dos 105 minutos de Buena Vista Social Club, Wenders percorre as ruas da capital cubana Havana. E o que ele mostra não pode, de forma alguma, ser demagogicamente chamado de belo. Tanto no centro quanto na periferia da cidade, o que se vê são sobrados que apresentam aspecto nada agradável, nitidamente expostos à mercê do efeito temporal, sem qualquer sinal de terem, algum dia, sido reformados. Talvez eu mesmo esteja sendo insistentemente eufemista: o que quero dizer é sinais de pobreza visível saltam aos olhos, sendo impossível terminar o filme sem comentá-la. Em contraste, ainda dentro do aspecto das edificações, os únicos edíficios que exibem a beleza e o frescor de cuidados constantes são, notadamente, edifícações sob os cuidados do governo cubano. A humildade financeira do povo cubano não fica clara apenas no exterior de suas casas: nas gravações feitas na residência de alguns dos músicos vemos que a pobreza é a constante, e os depoimentos dos artistas confirmam o fato.
Não quero aqui estipular posicionamento algum sobre a realidade sócio-política deste país que tem sido prazerosamente o santo Graal de infindas arguições dos defensores e detratores do regime socialista/comunista. Seria ingenuidade da minha parte expor um posicionamento contrário ou favorável, já que sabemos que o regime cubano também apresenta alguns aspectos positivos. Trato apenas aqui de expor um fato retratado com cuidado e sem qualquer posicionamento nítido, pelo menos à primeira vista, no filme de Wenders. A música cubana é sem dúvidas bela, mas a realidade daqueles que a fazem, aparentemente não é.

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“Fahrenheit 9/11″, de Michael Moore.

18 de Novembro de 2005

Fahrenheit 9/11Michael Moore surpreendeu e divertiu e, em certa medida, informou em “Tiros em Columbine”. No seu segundo documentário, o diretor ainda obtem estes efeitos. Porém, depois do sucesso mundo afora, e da coroação de seu discurso e procedimentos, como na cerimônia do Oscar em que foi premiado, a sombra da presunção se fez presente na personalidade de Michael Moore. Não que ele já não fosse presunçoso. Mais esses traços de sua personalidade passaram e integrar ainda mais o seu trabalho.
Em Farenheit 9/11 Moore exagera. Ninguém, em plena sanidade mental, simpatiza ou apóia o presidente americano George Bush. Um imbecil é o mínimo que se pode dizer dele. Mas Moore faz com que tudo pareça pessoal demais no seu mais recente documentário. E isso, inevitavelmente, acaba por pesar a favor de Bush. O excesso de comentários sobre as atitudes de Bush, inclusive diante de situações até então inimaginavelmente estapafúrdias para um governante, as estórias de mães de soldados mortos no Iraque, as imagens de bárbaries cometidas pela “inteligência” das forças armadas americanas e de coalisão. Tudo isso toca o expectador, mas também cansa sua paciência diante de tentativas tão insistentes de culpabilizar o presidente americano. Que este senhor repugnante é passível de culpa, todos sabemos. No entanto, toda população americana, eleitores ou simplesmente incentivadores seus, é tão ou mais culpada quanto. Não apenas por ter eleito um “ogro” (parafraseando Rufus Wainwright em “Waiting for a dream”) para a Casa Branca, mas ainda mais por dar apoio incondicional, baseando-se em provas que não sobreviveriam ao comentário do mais leigo dos mortais, à todas as suas barbáries. Pensando desta forma, o documentário acaba por ser tão ingênuo e superficial quanto a maior parte das discussões, particularmente de origem americana, sobre esse tema. Chega de culpar Bush. Ele não passa do porta-voz da maioria norte-americana. E nenhuma grande produção daquele país ainda teve a coragem ou astúcia de mostra-lo.

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