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“Onde os Fracos Não Tem Vez”, de Joel e Ethan Coen. [download: filme]

11 de Março de 2008

No Country For Old MenUm homem, praticando caça no deserto, se depara com uma série de carros e pickups abandonadas em meio a desolação. Ao aproximar-se encontra diversos cadáveres e descobre uma enorme quantidade de heroína. Após questionar, sem muito sucesso, um moribundo que sobreviveu ao tiroteio, ele acha, não muito longe, uma valise com 2 milhões de dólares - parte da transação mal-sucedida.
Sem ter muito medo de parecer estar desmerecendo o trabalho de Joel e Ethan Coen, pode-se afirmar que a grande “sacada” do longa-metragem “Onde os Fracos Não Tem Vez” é, na verdade, obra do escritor Cormac McCarthy, e algo previamente idealizado por ele já nas linhas, por ele compostas, no seu livro homônimo: muito além da competência tanto na construção do realismo palpável da história, perpassada de ironia e humor muito sutis, quanto na composição da idiossincrasia do taciturno assassino Anton Chigurh - que orienta sua conduta e a sorte de suas vítimas na noção de que toda e qualquer circunstância é determinação inquestionavelmente necessária do destino - a grande idéia está na relação de contraste existente entre a abordagem realista dada a trama e a essência insólita da personalidade de Anton Chigurh, o único personagem que realmente se destaca nesta trama feita praticamente apenas de personagens periféricos - é no contraponto existente entre as abordagens destes dois componentes, um deles interno ao outro, que torna a trama do livro, e consequemente do filme, realmente interessante. Mas, se por um lado esse mérito é fruto de idéias de autoria de Cormac McCarthy, por outro a sua narrativa guarda razoável similaridade com o cinema que fez Joel e Ethan Coen tão famosos, tornando o trabalho de adaptação para o dupla de diretores, roteiristas e produtores um passeio em um parque de diversões cujos brinquedos eles já experimentaram tanto - como muito do que compõe o estilo dos diretores já estava presente na história, arrisco supor que bastou aos irmãos manter o foco da adaptação fiel à atmosfera da trama criada por McCarthy para que o roteiro estivesse apto à ser encenado. Porém, um filme não se resume ao seu roteiro, e no que tange aos seus outros aspectos, a competência também se fez presente: com relação a direção de fotografia, Roger Deakins potencializa a aridez do deserto tanto na sua escura gravidade noturna quanto na sua ofuscante luz diurna; no campo da trilha sonora, o compositor Carter Burwell dá espaço à crueza das situações com sua trilha surda e quase inexistente; e no trabalho de direção propriamente dito, os Coen mantém as mãos bastante seguras, coordenando os elementos que dispunham de modo firme o suficiente para transpor fielmente a narrativa para as telas - o que deve ter incluído as diretrizes certeiras para Deakins e Burwell na condução de suas respectivas tarefas.
Mas e quanto ao elenco?
Bem, como eu disse acima, a trama de “Onde os Fracos Não Tem Vez” foi construída de forma que praticamente não há protagonistas a conduzindo solenemente, mas apenas um punhado de coadjuvantes que a guiam de forma algo colaborativa, quase nunca dividindo a mesma cena. Desse modo, o equilíbrio entre os atores, com boas atuações, mantem-se constante, porém, Javier Bardem, ganhando o papel de Anton Chigurh, ganha nítido destaque frente aos outros, em grande parte devido à própria natureza do personagem, em outra devido ao seu trabalho que é sim competente ao compor um homem de aspecto opressivo e grave que, ao mesmo tempo, transparece à sua afeição ao sarcasmo sutil, mas que pertence àquela gama de atuações que, não é difícil perceber, não exigem muito do ator.
“Onde os Fracos Não Tem Vez”, muito mais do que um filme de personagens é um filme que põe seu foco nas consequências dos atos perpretados por estes, ilustrando de modo argucioso como a ação mais corriqueira pode mudar o rumo pensado por estes personagens para as suas vidas. Mesmo com “Fargo” e “Ajuste Final” ainda ocupando o posto de momentos mais brilhantes de suas carreiras, este novo filme reaproxima os irmãos Coen do cinema cheio de sagacidade e de discreta morbidez do qual tinham se afastado tanto depois de seguidas incursões cinematográficas reprováveis e sofríveis - e não foi tarde para que os Coen percebessem que os fracos realmente não tem vez no cinema.
Baixe o filme, já legendado em português, utilizando os links a seguir.

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“Pai e Filho”, de Alexander Sokurov. [download: filme]

24 de Janeiro de 2008

Otets I SynAleksei, jovem que serve às forças armadas, vive sozinho com seu pai há muito tempo. Acostumados a rotina da companhia mútua e nutrindo uma relação de muita proximidade e carinho, ambos começam a sofrer por sentir que, devido a suas ocupações, podem ter que se separar.
Mesmo que Alexander Sokurov o negue, assim como a intencionalidade disto, o longa-metragem “Pai e Filho” é um filme essencialmente ambíguo. A priori, a aparência dos protagonistas do filme, ambos jovens e fisicamente atraentes, acaba por desassociá-los e muito do retrato de pai e filho, assim como a intimidade física de sua relação, repleta de carinhos e olhares mútuos insistentemente intensos e demorados, reforça ainda mais esta impressão inicial. Porém, através das poucas falas dos personagens, logo passamos a identificá-los realmente como pai e filho, o que, somado ao contato físico tão íntimo entre ambos, deixa uma conotação incestuosa desta relação. Esta interpretação, é bom ressaltar, foi a adotada por boa parte da crítica e público, e que causou um certo rebuliço nos círculos do cinema de arte. Sokurov, no entanto, não tardou a repudiar prontamente tal interpretação, afirmando que o homoerotismo e incesto do filme existem somente na mente doentia de quem os anunciou. E esta visão destituída de qualquer traço sexual não é feita sem embasamento: de fato, no decorrer do filme, é possível, sem muito esforço, formular a interpretação de que essa relação mais próxima do que se casualmente vê é fruto do comportamento arredio dos dois protagonistas, que isolam o cotidiano de sua relação do contato de qualquer pessoa externa à este relacionamento, procurando tornar sempre mínima a interferência e participação de alguém “estranho” à “simbiose” que construíram - tanto o pai quanto seu filho acabam por afastar, hora de modo consciente, hora inconsciente, amigos e romances para preservar a intensidade construída desde cedo nesta relação. Porém, mesmo que se escolha adotar uma ou outra interpretação, a ambiguidade permanece, insistente, por mais que se encontre ali traços de uma relação incestuosa, e por mais fundamentada que seja a opinião do diretor contra esta interpretação: a verdade é que apesar de que não há concretamente algo que torne sustentável a possibilidade de uma relação incestuosa, tampouco esta relação é destituída do caráter erótico, caráter este que se faz intensamente presente graças as escolhas e a abordagem feitas pelo diretor. E esta dualidade intrínseca ao teor da relação entre Aleksei e seu pai, que confunde, desmancha e, consequentemente, despreza os limites da definição usual do que seria uma relação de pai e filho puramente fraternal de uma outra que se mostra, ao menos, mais erotizada, que é a questão central de “Pai e Filho”, tornando este o longa-metragem mais tematicamente ousado de Sokurov - se não for o mais ousado que já foi feito sobre o tema.
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“Minha Vida Sem Mim”, de Isabel Coixet. [download: filme]

2 de Janeiro de 2008

My Life Without MeAnn, uma jovem casada e com duas filhas, descobre, depois de sofrer um desmaio repentino, que tem um tumor em metástase avançada. O resultado: não mais do que dois meses de vida. Tendo em mãos esse prognóstico, Ann decide tomar algumas medidas antes de sua morte.
A partir da idéia do livro de Nanci Kincaid, a diretora Isabel Coixet explora a descoberta, por uma jovem mãe de família, de sua morte iminente e as resoluções, tomadas por ela, a partir desta descoberta. Se caísse nas mãos erradas, a história da jovem que vive em um trailer nos fundos da casa da mãe, que sobrevive como faxineira em uma escola e que casou e engravidou, na adolescência, do único homem com que se envolvera na sua vida, certamente acabaria virando folhetim da pior qualidade, um inevitável dramalhão inundado pelo sentimentalismo mais barato e pela pieguice mais óbvia, que de quebra serviriam como veículo perfeito para a chamada “superinterpretação” do mais ávido candidato à receber uma estatueta dourada californiana. No entanto, nas mãos dessa diretora espanhola, a sensibilidade não é afogada pelo lugar-comum e por um elenco de olho em premiações fáceis. Ao contrário, ela ganha elegância, classe, inteligência e muita delicadeza: ao invés de dar chance à uma tsunami de desespero, sofrimento e amargor auto-inflingidos pela sensação de impotência frente ao destino inevitável, ou mesmo ao seu oposto extremo, ao hedonismo irrefreado, devidamende despertado por uma turnê de experiências inconsequentes na tentativa de viver tudo o que não vivera até então, a diretora-roteirista faz com que a protagonista, antes já uma mulher equilibrada e conformada com sua realidade, mergulhe em um estado de ainda maior compreensão sobre sua situação, que a faz encarar a inevitabilidade e proximidade de sua morte com uma serenidade implacável, dando-se ao direito de derramar apenas algumas poucas lágrimas enquanto busca muito mais reafirmar o que viveu e vive do que saborear novas experiências. E o elenco, composto apenas de nomes modestos do cinema norte-americano, auxilia não apenas pelo seu desempenho na medida exata - particularmente o de Sarah Polley, que voltaria a trabalhar com a diretora no seu próximo longa, já comentado por aqui -, mas também pela credibilidade e verossimilhança que concede aos seus papéis de pessoas comuns - algo muito trabalhoso de ser atingido com as estrelas e astros de Hollywood de beleza perfeita e fama imensa, que dificilmente conseguem imprimir o realismo que um rosto menos popular imprime.
E isso tudo faz a diferença entre este longa-metragem de Isabel Coixet e tantos outros que já vimos sobre os “bastidores” da jornada para a morte de um ser humano: ao invés de explorar a emoção do público como em uma montanha russa, onde todas as sensações parecem intensas mas, na verdade, não vão além de experiências falsas e fulgazes, “Minha Vida Sem Mim” o faz com a mesma sutileza de uma paisagem passageira à janela de um trem em movimento, que deixa em que a observa sensações bem mais indeléveis e verdadeiras.
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legendas disponíveis (português):
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“2010: O Ano em que faremos contato”, de Peter Hyams. [download: filme]

27 de Dezembro de 2007

2010 - The Year We Make ContactDepois de nove anos sem saber exatamente o que levou a interrupção da missão da Discovery à Júpiter, uma missão conjunta de russos e americanos, em meio à iminência de um conflito entre as duas nações, parte em direção ao planeta para tentar desvendar o verdadeiro destino da nave e de sua tripulação.
Arthur C. Clarke resolveu dar continuidade à história criada por ele e pelo diretor Stanley Kubrick sem a participação deste e, de certa forma, mesmo sabendo que as chances de um filme que pelo menos se equivalesse à qualidade do primeiro eram pequenas. Com essa decisão, Clarke acabou por retirar uma pequena porção da beleza da saga que criou: ao dar ocorrência à continuidade dos eventos, o escritor interfere, de certo modo, na status absolutamente provocador da história que ganhou forma e poder no longa-metragem que elaborou junto com Kubrick e, por mais que este filme permaneça uma obra-prima, cuja aura artística jamais será impugnada por coisa alguma, um dos mentores de sua história, inegavelmente, revela alguns do mistérios e enigmas que faziam da saga original algo atemporal. Com os detalhes criados - e revelados - para a sequência do filme e da história, a força dos personagens não chega a ser atingida, mas fica levemente empalidecida pelos deslizes do filme e do argumento. E eles, diga-se, são facilmente perceptíveis: os “sobrenaturalismos” algo transcendentais, nas mãos de Peter Hyams, soam baratos e até um tanto piegas - observe uma das “interferências” terrenas de Dave Bowman, escovando o cabelo da mãe quase moribunda, e você vai poder entender o quanto isso era desnecessário -, ao invés de colorirem o filme de modo espetacular, como aconteceu anteriormente; a iconografia criada por Kubrick, e reciclada neste filme - como as transformações físico-cronológicas de Dave Bowman, incluindo o feto que fecha o filme original, assim como boa parte do que foi HAL 9000 - são reduzidas ao pastiche, perdendo o seu magnetismo espectral, e por fim, a trilha sonora soberba pinçada por Kubrick, que conseguiu compor grande parte da identidade sombria do filme anterior ao misturar o erudito mais clássico (Johann e Richard Strauss) ao mais contemporâneo e experimental (os macabrismos de György Ligeti) é parcial e timidamente retomada - parecendo com isso mais uma obrigação que o diretor se impôs, como a querer criar uma relação de parentesco direto com “2001″ - e acompanhada por uma trilha original medonhamente convencional, composta por David Shire, que em nada auxilia o filme, bem pelo contrário. Porém, como algo positivo neste longa-metragem, deve-se reconhecer que, mesmo deixando o filme datado, a decisão de Arthur C. Clarke de explorar uma animosidade que se intensifica entre Estados Unidos e Rússia, enquanto a missão conjunta é executada espaço adentro, cria um conflito interessante entre os personagens que, de certa forma, sentem-se divididos entre o companheirismo inevitável e o orgulho patriótico.
Que já era sabido de pronto que as chances de “2010″ fazer jus ao status magistral de “2001″ eram ínfimas, por conta de o primeiro ter se tornado um ícone inquestionável do cinema de arte, isso é inegável. Mas é por, possivelmente, a idéia de sua existência ter nascido por questões afetivas de Clarke - relativas ao seu desejo de retomar os personagens que lhe deram prestígio e notoriedade - é que o filme e sua história enterraram as chances de vislumbrar algo muito maior do que ser um mais uma ficção-científica que explora, de forma linear e convencional, a eterna e inevitável esperança de que a humanidade não é a única coisa viva perdida no cosmo.
Baixe o filme utilizando uma das opções de links a seguir e verifique qual das legendas seria a adequada.

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legendas disponíveis:
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“Senhores do Crime”, de David Cronenberg. [download: filme]

22 de Dezembro de 2007

Eastern PromisesObstetra, sensibilizada com a morte de uma garota de 14 anos no parto, procura dados sobre sua família, no diário encontrado com ela, para poder informar sobre o nascimento do bebê. É através deste diário que ela entra em contato com uma família de mafiosos russos em Londres, colocando em risco a vida dela e de sua mãe e tio.
David Cronenberg já foi conhecido por explorar a loucura, o estranho e o surreal em filmes de suspense, terror e ficção científica. Nestes longas, a sua obsessão com o corpo, abordando-o e explorando-o de forma bizarra, era conhecida como a sua marca registrada. Desde “Marcas da Violência”, Cronenberg mudou radicalmente o foco de seu cinema: mesmo que, de alguma forma, ainda mostre sinais de sua fixação pelo orgânico - presente no detalhismo da violência que gosta de expôr -, esta passou a ser mero reflexo do ambiente e temática que agora decidiu explorar, a do submundo do crime. Nesta esfera narrativa, o diretor canadense decidiu explorar personagens que, de algum modo, desestabilizam este ambiente: enquanto no longa anterior seu foco caiu sobre alguém que queria deixar de pertencer à este mundo, em “Senhores do Crime” ele inverteu a premissa, colocando como um dos protagonistas um homem que se esforça para entrar nele, mas que ao mesmo tempo evita os excessos típicos dos que dele fazem parte - ambos interpretados nos dois filmes pelo mesmo ator, Viggo Mortensen. Uma característica interessante do roteiro é que ele tem uma tendência a poupar o excesso de desgraças shakespearianas que é típico do gênero, mas ao mesmo tempo, a certa altura do filme, ele também torna-se um tanto previsível, visto que já se pode antever algumas coisas relativas à um dos protagonistas, e ainda acaba, nos seus últimos minutos, deixando de retratar eventos que poderiam incrementar o seu epílogo, preferindo apenas citar a resolução de tais eventos ao avançar no tempo e mostrar o destino que os personagens tomaram. Tais problemas na concepção do roteiro, bem como a própria condição linear e tradicional de “Senhores do Crime”, fazem do longa-metragem apenas mais um que se alinha à média dos que tematizam sobre a máfia e o mundo do crime. E isso, infelizmente, o faz estar bem longe de algo que se espera de David Cronenberg, que mesmo quando tem nas mãoes um material que pisa bem firme com o pé no chão é capaz de recheá-lo de sequências e soluções que lhe conferem a marca notória de seu cinema idiossincrático - como aconteceu em “Marcas da Violência”.
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legenda (português) [via legendas.tv]:
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